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Falar é fácil

Desde que deixou o governo em 2010, Paulo Hartung vem querendo se firmar como um intelectual de vanguarda. Um homem que está preparado para enveredar por qualquer assunto: da educação à mobilidade urbana, da economia à violência. E por aí vai…
 
Para alimentar sua verve intelectual, o ex-governador tem escrito livros, feito palestras dentro e fora do Estado e emplacado artigos em jornais e sites capixabas. 
 
Nesta segunda-feira (9), postou mais um no Folha Vitória para dar seus pitacos sobre os “Desafios das Cidades Brasileiras”. No artigo, o ex-governador destaca dois pontos: mobilidade urbana e violência. 
 
Se Hartung não tivesse governado o Estado durante oito anos (2003-2010), suas reflexões poderiam ser até relevadas, independente das posições defendidas. 
 
O problema é que o ex-governador abordar questões que foram negligenciadas no seu governo, como a violência urbana, por exemplo. Hartung, ao tocar no assunto, deveria corar de vergonha. Afinal, mais de 14.234 pessoas foram assassinadas durante seus dois mandatos, ou seja, uma média de 1.780 mortes por ano, quase cinco por dia.
 
No seu governo praticamente não houve reposição dos efetivos das policiais Civil e Militar. O buraco deixado por Hartung começa, aos poucos, a ser coberto pelo governo Renato Casagrande. Ninguém é capaz de repor efetivos da noite pro dia. Esse hiato deixado pelo antecessor tem custado mais vidas todos os dias. Basta olhar para o índice de homicídios, que há mais de uma década é o segundo mais alto do país.
 
É evidente que combate à violência não se faz somente com mais policiais nas ruas, mas é irrefutável também que não se reduz índices de criminalidade com um policial para cada mi habitantes (a Organização Mundial de Saúde recomenda 1 para cada 250 habitantes), como é o caso de Serra – um dos municípios mais violentos do Estado e do Brasil. 
 
Além de policiais, é preciso que o poder público tenha um programa efetivo nas chamadas zonas de exclusão das cidades. São justamente os bairros pobres os mais vulneráveis à ação de organizações criminosas e consequentemente à violência. 
 
Nas periferias estão os principais autores e também as vítimas da violência: jovens pobres e negros. Alguém por acaso se lembra de um programa social do governo Hartung voltado para os segmentos mais vulneráveis da população? 
 
A sombra álgida dos números é a prova inconteste de que o governo Hartung teve um desempenho pífio na área de segurança. Embora ele trate a realidade, como no artigo, de maneira enviesada 
 
Hartung escreve que “nas últimas duas décadas a violência cresceu de forma dramática, deixando de ser, inclusive, privilégio dos grandes centros”. 
 
A percepção, mais eloquente que os números, transmite a sensação de que a violência é crescente. Mas os dados mostram que, na média, os índices nacionais de homicídios vêm caindo na maioria dos estados brasileiros. Basta olhar para os números, por exemplo, de São Paulo e Rio de Janeiro. Os dois Estados do Sudeste, diferentemente do Espírito Santo de Hartung, investiram pesado na segurança e viram as taxas de homicídios caírem ano a ano. 
 
“A violência é uma questão bastante objetiva em seus sintomas, mas que guarda raízes em vários campos, do social, passando pelo econômico, chegando ao cultural. Os esforços para criar uma cultura de paz e um cotidiano de tranquilidade e fraternidade devem ser feitos por todos: poderes públicos, sociedade civil, famílias, cidadãos”. Muito comovente, não fosse ele tão insensível a essa realidade quando esteve com a caneta na mão.
 
Como no restante do texto, o ex-governador junta frases de efeito para tentar impressionar o leitor desavisado. As causas da violência, como disse Hartung, guardam raízes em vários campos. Faltou ele esclarecer que todos “esses campos” foram negligenciados pelo seu governo. 
 
Francamente, há certos assuntos que Hartung deveria se privar de comentar, segurança pública é um deles. 

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