Fora Temer, que após dois anos na chefia do governo não conseguiu juntar cacife para concorrer, os candidatos preliminares à presidência começam a esquentar os motores para a reta final a ser percorrida somente depois da Copa do Mundo, que começa dentro de dias, em junho – a propósito, quem vai ganhar: Alemanha ou Brasil? Como diria Garrincha, é bom combinar antes com os russos, os anfitriões de 2018.
Na mais estranha pré-campanha eleitoral dos últimos tempos no Brasil, as apostas seguem concentradas em Lula, que detém mais de 30% das intenções de voto, mesmo estando no início do cumprimento de uma pena de 12 anos de prisão por – controvérsias à parte – corrupção.
À sombra da desgraça do líder petista, cresce — surpreendentemente colocado em segundo lugar (18% das intenções de voto) — o nome do deputado Jair Bolsonaro, o ex-militar que cristalizou um discurso agressivo a favor da violência, do apoio à tortura de adversários políticos e “morte aos bandidos”. Afinal de contas, o que isso significa?
Parece bastante claro que o apoio a Bolsonaro representa uma espécie de desabafo da população inconformada com os políticos e os governantes em geral. Pesa a favor desse candidato a brabeza (não confundir com bravura), com a qual disfarça a estreiteza mental. Fantoche a palrar bravatas diante dos microfones do parlamento e da mídia, seu futuro depende do grau de ignorância política do eleitorado, que pode despejar nele, em forma de votos – como ao Cacareco de anos atrás –, a frustração com as autoridades.
No fundo, a “popularidade” de Bolsonaro reflete a pobreza política nacional. De fato, as alternativas são pouco alvissareiras. Ao lado do representante da extrema direita, alinham-se outros candidatos conservadores que até agora não reuniram fôlego para deslanchar. Os mais notórios são o ex-governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB), a ex-ministra Marina Silva (Solidariedade), o ex-governador paranaense Alvaro Dias (Podemos) e o presidente da Câmara de Deputados, Rodrigo Maia (DEM).
Sem contar o vexame do ex-ministro do STF Joaquim Barbosa, que se inscreveu no PSB e fugiu da raia antes de entrar em campanha, é indispensável avaliar a situação do ex-ministro Henrique Meirelles, o candidato do MDB, o partido do governo. Após dois anos na Fazenda, Meirelles não amealhou nem 1% das intenções de voto. É um candidato sem ressonância popular. Fez a lição de casa desejada pelos mercados, mas deixou a economia estagnada, com alto desemprego e baixa capacidade de poupança e, portanto, de investimento no potencial de crescimento. Sua maior conquista é a queda da taxa de inflação a menos de 3% ao ano. Com a redução da taxa básica de juros pela metade, caiu a rentabilidade dos papéis da dívida pública, dando alento às especulações com o dólar.
Prato cheio para o economista Ciro Gomes, o candidato presidencial (PDT) que mais vantagem tem tirado da situação de incerteza econômica. Situado no centro do espectro político, o filho de Sobral aproximou-se do índice de 10% das intenções de votos graças a um discurso pronto inspirado na teoria do desenvolvimento de Celso Furtado, o pai da Sudene.
Mantendo-se sobre o fio da navalha, Ciro aspira a herdar parte do acervo eleitoral de Lula, de quem foi ministro e do qual se diz amigo há 30 anos, embora tenha mantido distância do ex-presidente durante o processo judicial movido pela Operação Lava Jato. O fato é que às vésperas de ir para a prisão, Lula saudou como herdeiros os jovens Manuela d’Avila e Guilherme Boulos, candidatos à presidência por dois partidos de esquerda – PCdoB e PSOL. Até agora nenhum deles passou de 1% das intenções de voto. Sinal de que os eleitores petistas ainda esperam nova mensagem do fundador e líder do PT.
LEMBRETE DE OCASIÃO
“Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. Ditado popular nordestino

