Bem no meio do ano chega o July 4th , dia da Independência Americana, que esse ano completa 238 aninhos. Mais velha que a nossa, nasceu a fórceps, de forma mais sangrenta e mais demorada – por ela morreram 25 mil americanos, numa população de 2,5 milhões de pessoas! Fosse hoje, mais de três milhões teriam perdido a vida! A Inglaterra demorou a desistir, como aliás em todas as guerras que fizeram para se libertarem de seu jugo.
Estranhos eventos continuam inexplicáveis naquele século tumultuado – se os franceses, mesmo cuidando de seus próprios interesses, ajudaram os americanos a expulsar os ingleses, por que, quando a paz foi finalmente assinada, os americanos preferiram se aliar aos ex-inimigos ingleses e desprezar os franceses? Benjamin Franklin lutou ferozmente contra essa decisão política, mas foi derrotado por motivos mais práticos: a mesma língua, os mesmos costumes.
Mas se a cultura foi fator decisivo, por que a nova nação desprezou o futebol e o cricket dos ingleses, criando seu ainda mais monótono beisebol? Outro costume que os americanos libertaram dos ingleses foi o ritual do chá – hábito tradicional da cultura inglesa – e aderiram ao cafezinho sulamericano. Mas aí entra outra vez a razão política, por causa do famoso “tea party”: foi a alta do preço do chá, que só o império podia cultivar, que deu início à revolução americana.
Criaram uma guerra por causa do aumento do preço da xícara de chá? E ainda zombam de nós pelos protestos que perturbaram nosso país recentemente, por causa do aumento da passagem dos ônibus, ou do pedágio da terceira ponte, ou das propinas dos que manuseiam a verba pública. O estopim da revolução francesa foi o aumento do preço do pãozinho. Os americanos também desprezaram o regime monárquico e aderiram ao regime republicano dos franceses. Enfim, a nova nação tinha mais a ver com a França, mas falar o mesmo idioma facilita as relações diplomáticas.
Um dos chamados “Pais da Pátria”, John Adams, escreveu para a esposa que a Independência ocorreria no dia 2 de julho, e deveria ser comemorada pelos séculos afora por atos solenes de devoção a Deus, com pompa e circunstância: paradas militares, shows, jogos esportivos, armas (?), badalar de sinos, fogueiras e fogos de artifício. Errou por dois dias, pois no dia 2 foi assinada a resolução de declarar a independência, não a própria. No documento oficial chamado Declaração da Independência consta a data 4 de julho de 1776.
Embora essa data tenha entrado para a história, muitos historiadores garantem que o documento foi realmente assinado em 2 de agosto, quase um mês depois. Entendemos a discrepância: os documentos de então eram laboriosamente escritos à mão, e provavelmente os participantes só puderam se reunir em agosto. Eram fazendeiros e devia ser tempo de colheita. Redigir outro documento ia demorar demais, portanto, preferiram assinar com a data atrasada.
Pelas estranhas disposições astrais, as duas únicas pessoas que assinaram a declaração de independência e se tornaram presidentes do novo país, John Adams e Thomas Jefferson, morreram juntos em um 4 de julho, embora em locais separados. Outro Pai da Pátria que foi presidente mas não assinou a declaração, James Monroe, também morreu em um 4 de julho. O único presidente americano nascido no dia 4 de julho foi Calvin Coolidge.
O feriado é festejado com piqueniques nos parques, com hot dogs e muito churrasco de hamburguer. Mas a meteorologia estraga a festa, pois Arthur, o primeiro furacão da temporada, ronda o Caribe e pode ou não chegar aqui. Fogos de artifício explodem por toda parte, sendo em Nova York a maior exibição pirotécnica do país, promovida pela loja Macy’s. É a mesma que faz a famosa parada do Dia de Ação de Graças, que oficialmente abre os festejos do Natal e foi tema do filme “Milagre na Quinta Avenida”.