Quem acompanhou a reunião da CPI da Sonegação provavelmente tenha ficado com a imagem de Theodorico Ferraço (DEM) na cabeça, esbravejando e fazendo ataques pesados, xingamentos mesmo, ao desembargador Pedro Valls Feu Rosa.
A reunião desta terça-feira (23) foi um “presente” dos membros da CPI ao deputado Guerino Zanon (PMDB), um dos sete ex-prefeitos preso na Operação Derrama, que esperava ansioso o dia da vingança. Ele mesmo admitiu: “Estou me preparando para este momento há dois anos e meio”.
O ex-prefeito de Linhares ficou frente a frente com o seu principal algoz, o delegado Rodolfo Laterza, o mesmo que o interrogou logo após sua prisão, em janeiro de 2013.
Hoje era a vez de Zanon, na condição de membro efetivo da CPI, inverter as posições: fazer as vezes de inquisidor e submeter Laterza à condição de inquirido.
Das quase quatro horas de duração da reunião, pelo menos dois terços foram usados pelo deputado do PMDB para sabatinar o delegado. O problema é que Zanon foi malsucedido na sua empreitada.
Laterza recorreu ao seu dever ético de não se manifestar a respeito do mérito da operação. Ele repetiu isso tantas vezes que tirou Zanon do sério. Para cada nova pergunta do deputado, Laterza repetia a frase: “Existe processo em curso. Por uma questão ética-profissional, tenho o dever de não me manifestar sobre os fatos”; ou: “Tais informações estão nos autos do processo”.
Frustrado, Zanon passou a fazer e responder suas próprias perguntas, numa espécie de monólogo, que depois de mais de duas horas se tornou enfadonho. A reunião de hoje (23) serviu para mostrar que a participação de Zanon na comissão foi o maior erro da CPI. Zanon usou uma prerrogativa que o mandato de deputado lhe investe e advogou em causa própria. Faltaram ética e bom senso.
Desde o anúncio da composição da CPI este jornal alertou que a presença de Zanon já tirava a credibilidade da comissão antes mesmo do seu nascimento. Isso ficou patente quando o deputado passou a narrar os fatos na terceira pessoa para falar “do prefeito Guerino Zanon”.
Já o delegado, nos poucos momentos em que falou especificamente sobre a Derrama, afirmou, mais de uma vez, que a operação ficou inconclusa, que ainda podem haver desdobramentos, o que provocaria a reabertura das investigações. O delegado lembrou que existe uma investigação em andamento na Promotoria de Aracruz, e muita coisa ainda pode aparecer.
Quando a reunião se encaminhava para seu quarto final, foi dada a palavra a Ferraço, que até aquele instante permanecia arriado na cadeira, quase inofensivo. Parecia estar pensando no menu do almoço.
De repente, a fera acordou e show começou. Ferraço ignorou o inquirido da CPI, porque sabia que seu alvo não estava na Assembleia, mas a alguns quarteirões dali, no Tribunal de Justiça. O deputado — para deixar claro que sua briga não era no andar de baixo — afirmou que os delegados do Núcleo de Repressão às Organizações Criminosas (Nuroc), que atuaram na Derrama, foram induzidos ao erro pelo então presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Pedro Valls Feu Rosa.
A partir daí, o tom do discurso foi subindo. Como já fizera em outra reunião da CPI, Ferraço voltou a xingar Pedro Valls de bandido e acrescentou novos predicados (molecagem, covardia, safadeza) para classificar as manobras forjadas pelo desembargador para pôr na cadeia 33 pessoas, entre elas, sete ex-prefeitos, inclusive sua mulher, Norma Ayub (DEM).
O presidente da Assembleia construiu a tese de que Pedro Valls queria criar um grande fato para se promover. Segundo Ferraço, a intenção do então presidente do TJES era ganhar notoriedade para viabilizar sua candidatura a ministro do Supremo.
E fez novo ataque ao desembargador: “O que ele fez foi a maior covardia, maior molecagem. Não tem honra para usar sua toga”, se referindo às prisões.
Diferentemente de Zanon, que fracassou na estratégia, Ferraço precisou de apenas 20 minutos para deitar e rolar. Esse tempo foi suficiente para Ferraço apontar Pedro Valls como patrono da farsa.
O desembargador, por sua vez, manteve o silêncio. Soltou uma nota para informar que está impedido de se manifestar publicamente sobre processos pendentes de julgamento, em obediência ao artigo 36, III da Lei Orgânica da Magistratura Nacional (Lomam).
Ferraço, ao criminalizar Pedro Valls, tem convicção que já inverteu os papéis. Hoje Ferraço reivindica para si o papel de vítima e já se põe, acreditem, na condição de defensor dos direitos humanos: “Nunca mais haverá no Espírito Santo oportunidade para essas prisões ilegais”, garantiu.
Resta saber como a opinião pública vai interpretar os fatos. Será que Ferraço sai dessa como bandido ou mocinho?

