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Sábado, 15 Mai 2021

Ficha limpa

Se nada é como antes, por que não os casamentos? Que nem os produtos made in China, feitos para não durar, assim andam os casamentos modernos. Descartáveis, mas atraentes e baratos. Mas quem quer algo que dure para sempre? Só mesmo dinheiro e saúde. Ou aqueles relógios cuco alemães, antigamente obrigatórios em todas as casas de prestígio? Feitos para marcar horas eternas, ainda hoje enfeitam paredes mundo afora, indiferentes ao fluir do tempo e das pandemias.

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Esses relógios remontam ao século XVII e os casamentos são bem mais antigos, havendo referências a eles até na Bíblia. Sabe-se que Jesus frequentava festas de casamento, onde até dava uma força, melhorando a qualidade do vinho. Se nas Bodas de Caná os noivos eram parentes ou apenas amigos, a história não registrou. Também não se sabe se o casamento durou para toda a vida de um dos consortes, mas tendo a presença de um convidado tão nobre, devemos acreditar que sim. Se esses casamentos duravam ou não, a Bíblia não conta. Mas uma coisa é certa - os noivos que contavam com a presença de Jesus eram todos fichas limpas.

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Muitas voltas tem dado esse sofrido globo terrestre até chegarmos a esse desastroso século das maravilhas, e a não ser pelos modelitos usados pelas noivas, pouca coisa mudou nos casamentos. Duas pessoas geralmente de sexos opostos resolvem viver juntos, em um ato devidamente oficializado em cartório, perante um juiz, e na igreja, diante de um sacerdote. Até que a morte nos separe - mas não ficou bem especificado se era a morte dos cônjuges ou do amor que diziam sentir um pelo outro. O símbolo desse amor eterno é o cisne, por ser bonito, monógamo e não se casar novamente quando fica viúvo ou viúva.

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Mas ninguém pesquisou a vida íntima dos cisnes para saber porque eles não recasam. Pode ser que cultivem o amor eterno que o ser humano tanto procura, mas talvez haja alguma lei inserida no DNA proibindo novos relacionamentos. Como saber? Na dúvida, sugiro que adotem o cuco, essa avezinha escolhida para marcar o tempo, como pássaro símbolo dos casamentos. Mas nesses tempos de ficha limpa, eles não seriam aprovados. Migratórios, eles se mandam para outros países, onde acham suas companheiras, desprezando as conterrâneas.

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São também parasitas, e não constroem ninhos: procuram um ninho prontinho, tiram um dos ovos do hospedeiro e depositam um dos seus. Ao nascer, o filhote do cuco expulsa os legítimos donos, ficando com o ninho só para ele. Mesmo assim, seu canto monótono foi o escolhido para anunciar as horas nesses belos relógios. Mas com a moda atual de caça às bruxas e bruxos, que elimina da história e da mídia os heróis de passado duvidoso, pode ser que o cuco seja também relegado ao ostracismo, substituído por algum pássaro ficha limpa. Que não seja a araponga.

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