Sexta, 24 Junho 2022

Flanelinha e a rua do caos

Estava trabalhando num documentário novo, sobre guardadores de carros em eventos no Rio de Janeiro. Já tinha feito alguns trabalhos online durante a pandemia de pintura virtual, um novo hobby que adquiri por não poder fazer pautas em locais que gostava, como antes da Covid-19. Depois que tomei três doses de vacina, resolvi retomar o meu trabalho de documentarista eventual, e logo me deparei também com uma pauta para o meu jornal.

Um dos guardadores de carro que conheci já tinha uns 66 anos e tinha caído naquela depois de ter perdido seu emprego em uma empresa prestadora de serviços para a construção civil. Ele era um dos responsáveis pela limpeza e conversava muito com um mestre de obras que, depois de beber muita cachaça, tinha morrido de infarto, e um mês depois, a empresa deste agora guardador de carros o demitiu.

Seu nome era José Antônio Costa Ribeiro dos Reis, também um ritmista de um grupo de samba, e parecia um homem meio louco, que gostava de cachaça e cigarro, e de ouvir muito Cartola e Nelson do Cavaquinho, este último, como um tipo de mestre dele, tanto na música como nas bebedeiras. Ele também falou que seu pai tinha conhecido Ismael Silva e etc.

Os papos sobre Noel Rosa renderam muito também e ele me contou que tinha uma máfia que comandava aqueles guardadores de carros e que ele não podia falar nada. Resolvi que iria ouvir um pouco de sua vida pregressa, e pedi autorização para produzir este material para a minha pauta jornalística, e que ele, Zé Antônio, seria um dos personagens principais deste meu novo documentário, que eu pensava em chamar "Flanelinha e a rua do caos".

Já tinha gravado alguns takes, tinha algumas dezenas, poderia descartar dois terços deste material e aproveitar um outro terço que já dava um bom bocado. Lá tinha o marmiteiro, e também o chefe daqueles guardadores, que falou, falou, mas não entrou em detalhes das ilegalidades que rolavam por ali, e eu também não me arrisquei a perguntar. Conversei longamente com dois guardadores, um menino novo de nome Jonas, e um senhor de nome Timóteo, este que era muito amigo do Zé Antônio.

Por sua vez, Zé Antônio começou contando de sua relação com Zé Pelintra e de como suas tours pela Lapa tinham a marca da influência desta entidade. Suas idas ao terreiro de Dona Noca, no Morro da Providência, dava um pano bom de histórias, como de seus trabalhos com pólvora e explosões, e que serviam para ele ganhar a proteção da esquerda matreira, que levantava e derrubava gente como eles achavam melhor.

No caso dele, depois de ter perdido o seu emprego na construção civil, ficou seis meses sem trabalho, fazendo um bico de entrega de marmita, e foi quando ele conheceu Timóteo, que o levou com ele para trabalhar guardando carros em eventos. Ele diz que foi Zé Pelintra que apresentou o Timóteo, só que sua mulher, Ruth, dizia que era coisa da cabeça dele, ela era meio cética e porra louca, e levava tudo na piada.

No caso da Lapa, ele fazia disputas de pif paf e de bilhar, de vez em quando se embrenhava numa roda de Capoeira Angola e conhecia uns malandros que faziam jogos de mesa para enganar incautos, um desses malandros era sobrinho dele, Fabinho, e ele disse que o Fabinho já tinha escapado de duas tocaias, e que seu Zé Pelintra tinha dado conta de três de seus carrascos, dois tinham morrido de acidente automobilístico e um de overdose de cocaína.

A disputa de bilhar tinha o Doca, que uns chamavam na brincadeira de Rui Chapéu, e que ganhava uns bons trocados em apostas, enquanto o Zé Antônio, de vez em quando, dobrava o que tinha ganhado guardando carros, e depois ganhava mais uns agrados no pif paf e recebia almoço de marmita pago pelo Fabinho quando rolava uma bolada tomada dos otários da rua. O Doca conhecia também o Timóteo e não trabalhava, fazia jogos para tomar dinheiro na rua, e era mais esperto até que o Fabinho, que tinha aprendido com ele, mas não tudo.

Sobre o próprio Zé Antônio, ele disse ter conhecido Ruth numa roda de samba, e o pai dela foi que começou a beber com ele primeiro, gostou dele e a Ruth apareceu e aconteceu a mesma coisa, foi tudo muito rápido, e ele foi estranhar depois é que a Ruth não perdia viagem e nem um chiste, era dá pá virada, e ele agora já estava acostumado com aquela zoeira, pois era toda hora, o Zé Antônio dizia que tinha um erê brincalhão que ficava pendurado nela e falando bobagem o tempo todo. Dele, fiquei sabendo que trabalhou de pescador quando jovem, e que tinha aprendido com Iemanjá o marulho e o ritmo dos cardumes.

Me parecia meio louca a descrição dele sobre Ruth, era uma relação incomum, e seu filho Ricardinho era que nem a mãe, um pândego de mão cheia, e que agora pensava em estudar teatro e ganhar dinheiro com stand-up comedy. De resto, depois que saiu da pesca, tentou a sorte como vendedor, garçom, ajudante de pedreiro, frentista, músico de rua e motorista de madame, já atuou como cambono do Exú Caveira, e foi quando esta sua história com o Zé Pelintra começou. Depois de ficar como motorista de madame, aprendeu um pouquinho de inglês, mas depois perdeu o emprego e foi parar na tal empresa prestadora de serviços para a construção civil.

Hoje em dia, Ruth continua com o seu trabalho de babá, o que fez a vida toda, desde os 15 anos, e acompanha Zé Antônio nas bebedeiras e nos jogos de bilhar. Seu melhor amigo hoje em dia é o Timóteo, e o Jonas, que conhece seu sobrinho Fabinho, não se mete em malandragem, vai para a igreja Assembleia de Deus para orar e ouvir a palavra, e junta tudo o que tem com o seu trabalho de guardador de carros. Não se mete em confusão. Fabinho é brigão, puxa faca e joga capoeira, por isso já foi tocaiado, até agora escapando.

Terminei a minha conversa com Zé Antônio, este take ficou bom, e entraria sem cortes para a fita master do meu documentário. Depois, de noite, fomos eu, ele e o Timóteo beber na Lapa, conversar e jogar bilhar. Não foi novidade que eu levei uma surra na mesa verde daqueles alunos de Rui Chapéu. Mas, tudo bem, tinha um aipim frito com carne seca e cebola que compensou tudo no fim.

Guilherme Thompson, cronista e outsider.

Guilherme Thompson é um cronista outsider, documentarista eventual, jornalista autodidata, nascido em 01/01/1974 na cidade do Rio de Janeiro, ganha a vida em jornais diversos, trabalha por demanda própria, vive nas ruas caçando pauta, meio como um antropólogo intuitivo, estuda literatura e filosofia por conta própria, gosta de se vestir com camisas de bandas de rock clássico.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
Blog
: http://poesiaeconhecimento.blogspot.com

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