Sexta, 21 Junho 2024

​Forja de políticos

Por muitas vezes já me posicionei por aqui, observando os problemas da democracia como regime político de gerenciamento da sociedade. Algumas vezes refletindo o estrago que a mesma causa às populações - fragmentação social, dominação dos setores mais bem articulados e ricos na defesa de seus interesses e em detrimento da população em geral -, sem deixar de reconhecer que ela ainda é o regime melhor que conseguimos construir.

Só apelo para que não percamos de vista que ela está em constante construção.

Ao assistir o avanço da ocupação de pessoas provindas do serviço público na política, me permito questionar se já não passou da hora de rever, aprimorar, recriar ou efetivamente criar um regulamento que evite a influência da prestação do serviço público, pela pessoa que recebe para isso, no processo de escolha, por eleição, de pessoas para representar o povo.

Alguma coisa maior que o atual regulamento de desincompatibilização do servidor público.

Talvez nos valha refletir que a representatividade é só mais uma forma de servir ao povo na função pública além da funcional, e que o trânsito da função pública para a representação pública tem enorme potencial de viciar o processo de nascimento do político ou da representação pública.

O processo de escolha de representantes, em geral, leva em conta a história de vida das pessoas que se candidatam, bem como o quanto sua ação é direcionada, ou não, em favor da coletividade. A grande diferença está no fato da pessoa em questão ter esse comportamento por iniciativa própria, ou como dever de ofício. Aquele remunerado, para não esquecer.

Essa confusão de protagonismo voluntário e profissional não incomoda o senso comum, e acaba construindo um corpo político de representação mascarada, formado por pessoas que se oportunizaram da função pública para a ascensão social por meio da mudança da carreira profissional para a política.

Aqui no Espírito Santo esse equívoco está escancarado com a quantidade de pessoas oriundas do funcionalismo público, candidatas ou eleitas, nos cargos eletivos. Ainda vale ressaltar o fato de a maior incidência de pessoas do serviço público, trasladadas para a política, se concentrar nas áreas de maior carência de serviços públicos, ou seja, de maior incompetência do Estado, como a segurança, a educação e a saúde.

Há muitos anos, conheci um médico, prefeito de interior, que me afirmou textualmente: "três meses com o bisturi na mão, eu ganho qualquer eleição aqui". É claro que uma cirurgia bem-sucedida, principalmente em cidades pequenas, arrasta votos de familiares, vizinhos e amigos da pessoa operada. Da mesma forma, um professor ou professora que empolga jovens a deslanchar numa direção positiva, também policiais, delegados, juízes, inclusive travestidos de justiceiros, entre tantos outros simples exemplos possíveis, ocupam cada vez mais espaços na política.

À lá Coruja de Minerva, arrisco ainda aprofundar que, nas cidades menores, a migração do funcionalismo para a política é dos cargos de assistência e na região metropolitana os da segurança.

Aos julgamentos!

Everaldo Barreto é professor de Filosofia

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