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Fosso social

A população negra brasileira ainda está longe de conseguir escalar o fosso que a segrega socialmente dos brancos. Estudos confirmam o tamanho da desigualdade. Os negros são as principais vítimas da violência, maioria da população carcerária, exercem as piores ocupações no mercado de trabalho e, invariavelmente, são os primeiros a entrar para as estatísticas do desemprego e os últimos a sair. 
 
O recorte da população negra no Espírito Santo reflete a realidade nacional. Em alguns casos, com contornos mais indeléveis. Em um Estado historicamente violento, jovens, negros, moradores das periferias são as principais vítimas e, ao mesmo tempo, principais autores da violência. Esse segmento, socialmente mais vulnerável, é facilmente cooptado pelas organizações criminosas que, na ausência do Estado, recrutam esses jovens para a criminalidade. 
 
Essa desigualdade aparece nas estatísticas de homicídios. O Estado, que durante mais de uma década se manteve na vice-liderança nacional de assassinatos, registrou decréscimo nos índices de homicídios nos últimos anos, mas em relação aos negros, sobretudo os jovens, as taxas seguem entre as mais altas no País. 
 
O Atlas da Violência 2017 aponta que, de cada 100 vítimas de homicídio no País, 71 são negras. Estudos estimam que o cidadão negro tem chances 23,5% maiores de sofrer assassinato em relação a cidadãos não negros, já descontado o efeito da idade, sexo, escolaridade, estado civil e local de moradia. No Espírito Santo, a taxa de homicídios de pessoas negras está entre 51 mortes violentas por grupo de 100 mil habitantes, ante a população de não negros essa taxa é de 11,2. 
 
Com as mulheres negras não é diferente. Não por acaso, nesta segunda-feira (20), Dia Nacional da Consciência Negra, as organizações da sociedade civil decidiram destacar, na Marcha Estadual contra o Extermínio da Juventude Negra, a violência contra as mulheres. O tema da décima edição da marcha (“Vidas das Mulheres Negras Importam”) quis alertar à sociedade que este é o Estado onde mais se mata mulheres negras no País.
 
Esse abismo social que separa negros de não negros é ainda mais evidente quando se traça o perfil do sistema prisional do Espírito Santo. Levantamento de 2015 aponta que os negros (somatório daqueles que autodeclaram cor da pele preta ou parda) representam 77,4% da população carcerária, ou seja, para cada 10 presos, sete são negros.
 
As desigualdades se repetem no mercado de trabalho. Estudo publicado na semana passada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta, com base nos dados do terceiro semestre de 2017 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, que os desempregados são 13 milhões no País. Destes, 63,7% são negros (8,3 milhões). O resultado revela que a taxa de desocupação dessa parcela da população ficou em 14,6% ante a 9,9% de trabalhadores brancos. Isso significa que a cada três desocupados no País, dois são negros.
 
O coordenador do Círculo Palmarino, Luiz Inácio Silva da Rocha, o Lula, um dos militantes mais atuantes no Estado na causa do negro, lembra, neste dia de conscientização que o racismo se expressa revelando o quanto ainda produz desigualdades. “Nós, negros e negras, novamente sofremos com os piores impactos da crise que o País enfrenta. Isso reforça a necessidade do desenvolvimento de políticas de combate ao racismo no Brasil”.

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