Não foi desta vez que o governador Renato Casagrande teve um encontro bem-sucedido com os representes dos movimentos sociais. Nesta segunda-feira (2), no Palácio Anchieta, durante a entrega do Prêmio Estadual de Direitos Humanos ao militante Rafael Nascimento Miranda, o Feijão, do Centro de Defesa de Direitos Humanos da Serra, o governador ficou desconcertado com mais um protesto inesperado.
O cerimonial do evento, promovido pelo Conselho Estadual de Direitos Humanos, previa que o governador fizesse a entrega do prêmio ao militante. Entretanto, antes da entrega, Feijão explicou por que não poderia aceitar a homenagem das mãos do governador. Constrangedor.
Reeditando o formato dos protestos de ruas, em que um orador fala e os manifestantes repetem, o que eles chamam de jogral, Feijão fez um emocionante discurso, não poupando críticas ao tratamento que o governador vem dispensando aos movimentos sociais capixabas.
O militante já havia encarado o governador em agosto deste ano, durante a III Conferência Estadual de Promoção de Igualdade Racial, no Sesc Aracruz. Na ocasião, Feijão, que foi preso arbitrariamente pela polícia com outras 30 pessoas nos protestos de julho, lamentou a atitude do governo: “A manifestação era um pedido para construir um Estado mais democrático e justo. O senhor não conseguiu perceber isso. O senhor simplesmente mandou a BME [Batalhão de Missões Especiais da PM] pra cima da gente”, disse à época.
Nesta segunda, Feijão disse, novamente olhando dentro dos olhos de Casagrande, que não poderia receber o prêmio das mãos dele. “É inadmissível recebermos essa homenagem das mãos sujas deste governo que nos reprimiu com balas de borracha, que nos prendeu, governo que mata nossos jovens, principalmente negros nas periferias”.
As palavras do militante foram duras, mas coerentes. Desde que recebeu a comunicação do Conselho de Direitos Humanos de que seria homenageado, Feijão se mostrou reticente, uma vez que a cerimônia seria no Palácio Anchieta, com a presença do governador.
O militante, no entanto, foi convencido pelos companheiros que deveria sim receber a premiação como reconhecimento do trabalho que desenvolve no Centro de Defesa de Direitos da Serra.
Feijão foi apenas coerente quando disse que não poderia receber a homenagem, como reconhecimento de sua militância, da mesma pessoa que entendeu que esse trabalho é criminoso. É importante lembrar que Feijão e as outras três dezenas de pessoas presas no dia 19 de julho, no Centro de Vitória, continuam respondendo a processos.
A decisão de transformar a entrega do prêmio em protesto foi uma estratégia inteligente dos movimentos sociais, que não têm chances de se reunir com o governador. Esse diálogo com os movimentos sociais, com as ruas, ainda não é uma prática do governo que tem o selo de socialista
O governador pode ter pensado que o militante resignou-se do episódio que o levou preso, e que a notícia do prêmio o seduziria a aceitar tacitamente a homenagem como um pedido velado de desculpas. Se Casagrande fez esse raciocínio, foi um tanto ingênuo.
Inicialmente, evitando esticar a corda com os militantes, Casagrande disse que para governar é preciso ter humildade. “Humildade para poder trabalhar coletivamente, para a gente poder trabalhar de forma parceira com as entidades. É a gente reconhecer aqueles que querem construir e aqueles que não querem construir”.
Mas logo depois o governador desistiu das parábolas e rasgou o verbo, atingindo em cheio os autores do protesto no Palácio Anchieta. “Quem sabe depois dessa solenidade a gente, as pessoas que tenham entrado aqui com espírito intolerante, impaciente, destrutivo, arrogante, autoritário saiam com espírito construtivo?”.
Os manifestantes não quiseram ou não tiveram direito à réplica, mas, se falassem, provavelmente fariam deles as palavras do governador.

