A queda de braço entre o governo do Estado e as Cooperativas de Especialidades Médicas do Espírito Santo mostra que o secretário de Saúde Ricardo de Oliveira não é exatamente um gestor genial, como propalou o governador Paulo Hartung quando justificou que estava abrindo mão de ter um médico à frente da pasta para ter um expert em gestão. Hartung insistia na tese de que o cerne dos problemas da Saúde Pública passavam obrigatoriamente pela gestão. Com Ricardo de Oliveira, prometia, teria a solução desses problemas.
É verdade que a história já mostrou que o titular de uma secretaria ou mesmo de um ministério não tem de ter necessariamente formação na área para fazer uma boa gestão. Dois exemplos clássicos provam que isso não é regra. O sociólogo Fernando Henrique Cardoso comandou o Plano Real como ministro da Fazenda de Itamar Franco; o economista José Serra reivindica até hoje o título de Pai dos Genéricos. Pelo menos entre os tucanos é considerado o melhor ministro da Saúde que esse País ja teve. Há controvérsias.
O problema com Ricardo de Oliveira é que ele nada entende sobre Saúde Pública e tem falhado feio na gestão. A fragilidade do secretário ficou evidente nesse impasse com as cooperativas médicas. Se espera que um bom gestor, como gosta de martelar Hartung, não conjugue o verbo improvisar. Planejamento costuma ser a palavra de ordem.
Ora, o secretário assumiu a pasta sabendo que o contrato com as cooperativas vencia em julho de 2015. As cooperativas, inclusive, o procuraram para dar início as negociações que, já se previa, seriam difíceis.
Oliveira, porém, não deu a importância devida ao problema. Um erro. Afinal, estão em jogo quase 80% de todos os atendimentos de urgência e emergência do Estado, que é desenvolvido por cerca de mil e quinhentos médicos cooperados divididos em oito especialidades: neurocirurgia, anestesia, cirurgia pediátrica, cirurgia geral, cirurgia plástica, ortopedia, vascular e intensivistas.
Não precisa ser médico ou tampouco gênio em gestão para prever que a paralisação dos serviços causaria um colapso no atendimento de urgência e emergência. Isso representaria um risco à vida de milhares de pessoas que dependem da rede pública de saúde.
Apesar da tragédia iminente, Oliveira decidiu endurecer o jogo com as cooperativas. Prorrogou os contratos em caráter de emergência por duas vezes. Só empurrou o problema com a barriga por mais 120 dias. Quando a vaca parecia que estava indo para o brejo, o governador Paulo Hartung, quem diria, recorreu a um médico para tentar sanar o impasse. O vice-governador César Colnago, um defensor das cooperativas, foi escalado para a negociação.
A boa capacidade de formulação política somada aos juramentos da medicina pesaram a favor de Colnago, que conseguiu selar um pré-acordo que previa um novo contrato de 18 meses com as cooperativas. Aos 45 do segundo tempo, Colnago parecia que havia evitado o colapso do sistema.
Ledo engano. Oliveira foi contrário ao acordo articulado por Colnago. Com a calculadora debaixo do braço, convenceu o chefe que o governo não deveria ceder à pressão dos cooperados. Num governo obcecado por cortes, prevaleceram os argumentos contábeis e as negociações voltaram à estaca zero.
Ricardo de Oliveira recebeu carta branca para tocar a negociação à sua maneira. Optou pelo emparedamento. Judicializou o impasse ao obter na Justiça uma liminar que obriga os cooperados a manter o atendimento até abril.
Enquanto ganha tempo, o aclamado “gênio da gestão” segue improvisando. Tenta substituir mil e quinhentos especialistas em oito áreas diferentes, contratando médicos (dizem que até residentes) as baciadas por meio de grandes empresas de recrutamento.
Talvez essa seja apenas mais uma estratégia do secretário para fazer pressão nos cooperados e obrigá-los a negociar dentro dos termos que ele deseja. Pode até dar certo, se bem que o retrospecto até agora foi desfavorável a Oliveira.
Alguém precisa alertar o secretário, talvez um médico, que ele está jogando com vidas.

