Na sessão de terça-feira (29) da Assembleia aconteceu um fato inusitado. Deputados governistas votaram contra um projeto do Executivo. A proposta que gerou a polêmica a ponto de dividir os parlamentares revoga a Lei nº 8.854/2008, que proíbe o uso de telefone celular em salas de aula da rede de ensino estadual. Para liberar o uso do celular, o governo alegou que os alunos poderiam ampliar os conhecimentos com a ajuda do aparelho.
Como geralmente acontece com os projetos oriundos do Palácio Anchieta, os deputados já haviam passado a chave para o automático, ou seja, pela aprovação do projeto. Entretanto, o deputado Sérgio Majeski (PSDB), sempre ele, mesmo sabendo que, mais uma vez, estava fazendo o papel de pregador no deserto, alertou os colegas sobre as consequências de liberar o uso do celular em sala de aula. O deputado, entre outros argumentos, afirmou que o uso do aparelho prejudicaria a qualidade do ensino.
O alerta do tucano parece ter sensibilizado parte da banda governista. A ficha caiu para alguns deputados que, indignados com o teor da matéria, votaram contra o governo.
Uma das manifestações mais acintosas partiu do deputado José Esmeraldo (PMDB), que também entendeu que o celular concorreria deslealmente com o professor. Assim também se posicionariam outros governistas que desaprovaram a proposta do Executivo.
Em pouco mais de 12 horas, os deputados que eram contra a liberação do celular na terça, mudaram de ideia na manhã desta quarta (30), passando a defender o uso das ferramentas tecnológicas em salas de aula.
Se na votação da terça o escrutínio apontava 10 votos a favor e 10 contra, algumas horas depois, após a sacudida do governador, o placar revelaria um “novo entendimento” sobre a matéria: 19 X 1. Majeski foi o único, mais uma vez, que mostrou coerência e se manteve imune ao assédio do governo.
As justificativas para sustentar o projeto do Executivo foram as mais estapafúrdias. A presidente da Comissão de Educação, deputada Luzia Toledo (PMDB), ressaltou a importância das pesquisas que podem ser feitas com a ajuda dos celulares. Já o líder do governo na Assembleia, deputado Gildevan Fernandes (PMDB), afirmou que praticamente todos os alunos dispõem de celulares e que o uso dessas ferramentas pode aprimorar e contribuir para a aprendizagem.
Primeiro uma correção à reflexão rasa de Gildevan. Não se pode partir do princípio que todos os alunos da rede pública de ensino têm celular e que esses aparelhos estão tecnicamente preparados para realizar as tais pesquisas sugeridas pelos governistas. E os alunos que não tiverem celular, ficam de fora das atividades ou vão consultar a Barsa?
Além da conduta patética dos deputados, que mudaram de opinião da noite pro dia porque temem o governador, há uma questão no mínimo controversa do ponto de vista pedagógico sobre o uso de celular em sala de aula. Apenas um dado para pôr fogo na polêmica. Uma pesquisa publicada ano passado pela London School of Economics and Political Science (LSE) apontou que as escolas britânicas que proibiram o uso do celular em sala de aula registraram melhora de 6% no desempenho dos alunos. Entre outros prejuízos, o estudo mostrou que os aparelhos dispersavam os alunos que, normalmente, já são suscetíveis à desatenção.
Os deputados que votaram a favor do projeto do governo — exceção a Erik Musso (PMDB), que já nasceu na geração digital — sentaram nos bancos escolares quando o telefone móvel não fazia parte nem dos roteiros de ficção de Hollywood. Eles sabem muito bem que manter a concentração do aluno sempre foi um dos principais desafios do professor em sala de aula. Quantas vezes o mestre repetia a frase “presta atenção!”. Era quase uma súplica desesperada. Uma tarefa quase inglória para manter os alunos atentos à explicação. Os que passaram por modelos de educação mais autoritários vão se lembrar que eram comuns gizes e mesmo apagadores voarem de vez quando na busca desesperada da famigerada atenção.
Ora, a geração Z — aquela que não conheceu o mundo sem internet — considera o celular uma extensão do corpo. Seus relacionamentos, sejam os amorosos, os familiares, os de amizade ou mesmo os profissionais, são mediados pelo celular. Os pais, muitas vezes — para citar a instituição (família) que, em tese, teria mais autoridade sobre esses jovens, padecem para conquistar um minuto de atenção dos filhos. Pedem feio na concorrência para o celular.
Imagina desafio do professor que passa quatro ou cinco horas dentro de uma sala de aula tentando conquistar a atenção de 40 ou 50 alunos com mãos coçando para dedilhar seus celulares? Mas os deputados vão dizer que basta o projeto regulamentar o uso em sala de aula e tudo se resolverá.
É fácil apresentar proposta tão despropositada porque não são eles que terão a missão de “regulamentar”, como se isso fosse possível, o uso dos celulares.
Como disse Majeski, não é questão de ser contra a tecnologia, mas é preciso valorizar o trabalho do professor.
O Google na sala de aula deve continuar sendo o professor.

