Preciosa se veste de branco, véu e grinalda, alguma coisa emprestada, alguma coisa azul. Flores de laranjeira misturadas com rosas brancas no buquê. Tudo indica que teremos uma cerimônia de casamento, embora não se veja o noivo nem o padre, elementos indispensáveis à concretização do evento. Nem convidados, mas esses poderiam ser descartados sem alterar o contexto dessa história. Ou da coluna.
Preciosa se veste de noiva toda primeira sexta-feira de todos os meses, dia em que se casaria com Nino, desta vez com padre e convidados, e até música ao vivo. Mas tem coisas que só acontecem mesmo com a Preciosa, e no dia marcado, na hora exata, o noivo esperando no altar, o violeiro ensaiando os primeiros acordes da Ave Maria da Angela Maria, os convidados sorrindo esperando a triunfal entrada da noiva… e não teve casamento.
A polícia chegou e algemou Nino ali mesmo no altar, indiferente à importância e sagrada relevância da ocasião. “Espera a gente casar primeiro!” gritava Preciosa, mas os homens da lei não lhe deram ouvidos. A festa prosseguiu sem casamento e sem noivo, aliás sem noiva, que Preciosa se trancou chorando no quarto, e de lá só saiu três dias depois. Ainda chorando.
Os convidados acharam que não se deveria desperdiçar o bufê contratado e já pago, mas Preciosa viu nessa atitude uma total desconsideração a seu sofrimento, e nunca mais falou com nenhum deles. Nino continua preso, acusado de bigamia, sendo já casado na igreja e no cartório duas vezes, embora em estados diferentes. Preciosa acredita piamente na inocência do amado, as duas queriam se vingar por terem sido desprezadas.
Toda primeira sexta-feira de todo mês Preciosa veste o mesmo vestido de noiva, a mesma grinalda, e carregando na bolsa o mesmo buquê já murcho, vai visitar Nino na cadeia. Choram juntos, ela jura que se casará com ele com aquele mesmo vestido assim que ele for solto, ele jura que não vai demorar, o advogado achou uma falha grave no processo, ou no sistema penitenciário, ou no depoimento das testemunhas, ou nas alegações das alegadas esposas.
Preciosa espera, mas não pretende ser uma excêntrica e moderna Miss Havisham, mesmo sem dinheiro, eternamente vestida de noiva, caminhando em volta da mesa do banquete tendo ainda no centro o bolo de noiva mofado e coberto de teias de aranha… mesmo porque nunca ouviu falar em Charles Dickenson, que eternizou a personagem em Grandes Esperanças. Miss Havisham foi abandonada pelo noivo no dia do casamento, e Preciosa sabe que Nino não a abandoná jamais.
Grandes esperanças para umas e outro… Para Miss Havisham era parar o tempo no dia e hora de seu casamento abortado; para Nino, conseguir uma liberdade condicional por bom comportamento; para Preciosa, se casar de véu e grinalda e um novo buquê de flores de laranjeira, como manda a tradição. Já escolheu o padre a igreja, mas não vai ter convidados.

