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Hartung saboreia o picolé da crise

A crise econômica brasileira, desde que se intensificou no final de 2014, vem deixando vítimas pelo caminho. A principal “chacina”, confirmada nas urnas nesse domingo (2), praticamente varreu o PT do mapa eleitoral. O partido de Lula, vítima das denúncias seletivas da Lava Jato, viu a presidente Dilma ser impichada num processo político que só teve sucesso, ironicamente, graças à crise econômica. Ou alguém acredita que Dilma cairia se a economia estivesse a pleno vapor?
 
Nesse caso, a crise que liquidou Dilma fez bem a Temer que, mesmo sem voto, recebeu um mandato de presidente de bandeja. Agora é ele que peleja para ressuscitar a economia para também não ser tragado pela crise. 
 
Mas se tem uma liderança neste País que vem se dando bem com a crise é Paulo Hartung (PMDB). O governador do Espírito Santo tem tanto medo que ela acabe, que tem a preocupação de sorvê-la aos poucos, quase com dó – como uma criança que chupa o picolé e se recusa a mordê-lo para prolongar aquela sensação incomparável de prazer. 
 
O picolé de Hartung tem sido a crise. Reparem. A justificativa para quebrar o pacto na continuidade com o então governador Renato Casagrande (PSB), em 2014, foi “plantada” por Hartung ao anunciar no prenúncio de uma crise que ameaçava o Estado. Escorado no polêmico relatório de Ana Paula Vescovi (hoje secretária de Tesouro) e Haroldo Rocha (hoje no comando da Secretaria de Educação), Hartung rompeu politicamente com o socialista para “salvar” o Espírito Santo do pior. Ele teria que partir para o “sacrifício” de ser governador pela terceira vez para recolocar a locomotiva do desenvolvimento nos trilhos. 
 
Funcionou. O prenúncio da crise foi suficiente para elegê-lo. Depois, com a ajuda de Ana Paula (que assumiria a Fazenda), o governador usou e abusou da “contabilidade criativa” para culpar o antecessor pela “quebradeira” do Estado. 
 
Afinal, era preciso mostrar o fundo do poço para valorizar a saída. Para isso foi criado um clima apocalíptico no início do governo. Hartung vestiu a carapaça de “Salvador da Pátria” para tirar o Estado do buraco. Mas estava decidido a fazer o espetáculo para uma plateia maior, além das divisas do Espírito Santo. Ele queria mostrar ao Brasil que tinha a receita infalível para encarar e domar a crise. Usou os números da “contabilidade criativa” para dizer à imprensa nacional que tirou o Estado da beira do precipício e o colocou num lugar seguro. Como operou esse milagre? Primeiramente demonstrando coragem para cortar na própria carne. 
 
O excelente trabalho de assessoria se encarregou de fazer o resto. Hartung, desde 2015, é figura carimbada nos principais veículos de comunicação do País. A nata da imprensa nacional já criou um lugar cativo para o governador ser consultado quando o assunto é a crise econômica. 
 
Na esteira da sua consultoria informal sobram críticas à condução da política econômica do governo Temer, seu colega de partido. Nesta terça (4), mais uma vez, o governador figurou como fonte principal de um importante jornal. O jornalista do Valor, Raymundo Costa, destacou a gestão “exitosa” do governador capixaba. Em seguida, Costa emendou. Destacou que quando o Palácio do Planalto fala em retirar o nome de Temer da lista dos presidenciáveis para 2018, o nome de Hartung aparece como “alternativa real”. 
 
Hartung não esconde que gosta do chamego de ver seu nome entre os presidenciáveis. Da boca pra fora tenta passar modéstia. Interpreta a lembrança do seu nome incrédulo. Prefere afirmar que está preocupado mesmo em contribuir para ajudar o País a superar a crise. 
 
A falsa modéstia não esconde os fatos. A bendita crise, sempre ela, tem “cavado” valiosos e recorrentes espaços para o governador na mídia nacional. Na semana passada, por exemplo, Hartung esteve em São Paulo como palestrante a convite de uma grande investidora do mercado financeira. Repetiu a mesma ladainha. Contou aos empresários como operou o “milagre capixaba”. Aproveitou para lustrar sua imagem de guru da crise. Mesma linha adotada no discurso feito no Insper (instituição de ensino superior nas áreas de engenharia, administração e economia), que hoje também tem grande influência sobre o mercado.
 
As falas nesses dois importantes fóruns, como planejado pela assessoria de comunicação de Hartung, resultaram em matérias na mídia nacional. 
 
Os efeitos dessa estratégia também reverberam para dentro. Internamente, a crise também tem serventia. Na reunião desta terça-feira (4) com os prefeitos eleitos (por enquanto com os mais jovens, os chamados marinheiros de primeira viagem), Hartung vai dar contornos apocalípticos à crise. Vai “assustar” os prefeitos com o fantasma da crise antes mesmo de eles pensarem em abrir o caixa. 
 
A estratégia e conscientizá-los de que não devem contar com o socorro (dinheiro) do Estado. Alertá-los que terão que caminhar com as próprias pernas. Qual o segredo para manter a gestão fora do vermelho? Hartung responderá: “Cortar, cortar e cortar”. 
 
Se os novos prefeitos entenderem a mensagem subliminar da receita de Hartung, quem sabe também poderão ter o dom de transformar crise em oportunidades. Precisam receber antes, porém, uma boa aula de como manipular as informações.

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