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História de gângsters

A reportagem publicada com exclusividade nesta quinta-feira (1) em Século Diário sobre o depoimento “clandestino” do ex-prefeito Luiz Paulo Vellozo Lucas a altas autoridades da Secretaria de Segurança Pública, com direito à presença do vice-governador César Colnago (PSDB), remete às cenas de clássico noir das décadas de 20 e 30 do século passado, tão improvável parece a história. 
 
Imagine a cena: Um cadilac Town 1928 (carro preferido de Al Capone) encosta sorrateiramente na rua erma. O ocupante, no caso Colnago, entreabre a porta rapidamente e acena para o colega tucano, que primeiro passa um olhar cismado sob a aba do panamá para se certificar que ninguém o observa. Em seguida, ele corre e num movimento ágil se aboleta num só movimento no banco aconchegante do sedan
 
Os pneus sibilam no asfalto é o Town arranca em disparada para o escritório de um advogado famoso, onde se daria o encontro secreto. A sala em penumbra e a luz recortada sobre o rosto do tucano o colocam na posição de réu. 
 
Os delegados Alexandre Passamani Galvão, do Núcleo de Repressão às Organizações Criminosas e à Corrupção (Nuroc), e José Monteiro Júnior, subsecretário de Inteligência da Secretaria Estadual de Segurança Pública (Sesp), colhem o depoimento do “suspeito”. Os advogados Luciano Ceotto (representante do ex-prefeito) e José Carlos Stein Júnior (amigo de Colnago e dono do escritório emprestado para o interrogatório) acompanham atentos as explicações de Luiz Paulo. 
 
Saindo da cena noir, os representantes da Sesp questionam o então candidato a prefeito de Vitória sobre a relação com seu advogado particular, Luciano Ceotto. Querem explicações sobre as notas fiscais da prestação de contas das eleições de 2012, e saber também sobre um apartamento adquirido por Ceotto
 
Sob o olhar de Colnago, ao que tudo indica articulador do depoimento, os inquiridores informam que há uma suspeita que envolve a aquisição do imóvel. Por que eles fazem essa insinuação? O suspense só aumenta. Cartas anônimas teriam revelado que o advogado comprara o apartamento com dinheiro de “caixa 2” da campanha do tucano. Embora as investigações feitas até o momento nada tenham concluído sobre a suspeita.
 
O texto se inspira nos filmes noir para tentar transmitir o clima que enreda a trama, que não tem nada de ficcional. É estarrecedor que em pleno século 21 autoridades públicas do alto escalão recorram ao modus operandi usado pelos gângsters para extrair um depoimento de maneira nada usual. Mas impressionante é que, se a estratégia era intimidar Luiz Paulo, parece ter funcionado. O então candidato tucano, algumas semanas depois do “interrogatório clandestino”, anunciaria, para surpresa de todos, que não disputaria mais as eleições a prefeito de Vitória, apesar de até então liderar as pesquisas de intenção de voto com boa vantagem sobre os adversários. Das explicações dadas até agora por Luiz Paulo para tentar justificar sua saída repentina do pleito, essa parece a mais plausível.

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