Aquela vida de fantasia era o sonho da Cinderela realizado

Alguns séculos atrás, havia um terreno baldio ao lado da cadeia municipal, no final – ou no começo, diziam os moradores – na prazerosa cidade de Alegre, onde depois instalaram o então chamado Tiro de Guerra. E fico matutando, por que um nome tão áspero, se vivíamos em paz com todos os países? Acho que o Trump nem tinha nascido e ninguém sabia o que era petróleo.
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Antes, porém, o local tinha melhor uso: era onde montavam circos e parques de diversões ambulantes – ou nômades, como se dizia naqueles idos. Para nós, moradores das proximidades, era uma festa. Em sendo nômades, eles precisavam de tudo – Posso encher um balde d’água? Pode emprestar uma mamadeira? A do menino quebrou…pode isso, pode aquilo mais, e nós crianças ganhávamos entradas de graça em todas as apresentações.
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Aquela vida de fantasia era o sonho da Cinderela realizado. A professora na sala de aula: O que vocês querem ser quando crescerem? Todas as mãos se levantavam: artista de circo! A professora explicava que não era uma boa opção: vocês devem estudar muito e ter uma profissão estável, com salário fixo e aposentadoria no final da linha. A turminha nas carteiras se revoltava: não quero ser funcionário público!
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Era um tempo sem televisão e ninguém sonhava ser artista de cinema, mas o circo estava ali na esquina, ao alcance de todos – Hoje tem espetáculo? Tem, sim, senhor! Os da arquibancada aplaudiam, na expectativa do que viria a seguir…já viu circo sem trapézio, malabaristas e dançarinos? Depois dos números perigosos, das danças estonteantes, dos animais bem-treinados, das palhaçadas do palhaço, era a vez das lágrimas rolarem: a função sempre terminava com uma peça de teatro.
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O que me intrigava era o fato de serem sempre dramas. Em sendo um espetáculo para divertir e encantar o respeitável público, não ficaria melhor uma comédia? O público pagante aplaudia sem questionamentos filosóficos. De tanto emprestar isso e aquilo, doar uma coberta usada ou uma panela sem cabo, nós, crianças, íamos ao circo de graça todas as noites, e já sabíamos a peça de cor e salteado – E não deu outra…
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Sentávamos ao lado do palco, e antes dos artistas declamarem sua fala, a gente falava por eles, em alto e bom som e com a devida entonação dramática. O respeitável público morria de rir ao invés das copiosas lágrimas exigidas pelo enredo. Fomos expulsas e acabaram as entradas grátis, como afinal acabaram os circos e parques no começo da rua. O Tiro de Guerra foi tiro e queda: acabou-se o que era doce, ou a realidade bate à porta.

