No último domingo (29), na ocasião da convenção estadual do PMDB, o ex-governador Paulo Hartung, após confirmar sua candidatura ao governo, abriu fogo contra o governador Renato Casagrande. Menos de 24 horas depois dos ataques, numa coletiva convocada às pressas, era a vez do socialista acionar sua bateria antiaérea para neutralizar a ofensiva. Era o fim (oficial) do armistício firmado em 2010. Estava decretada a guerra entre os dois principais postulantes ao Palácio Anchieta.
Na coletiva, Casagrande bateu forte na questão da segurança. Disse, por exemplo, que desde a época da colonização do Espírito Santo, não se matou tanta gente em terras capixabas como em 2009 – penúltimo ano do governo Hartung. “Foram 2.034 homicídios”, repetiu para se fazer entendido, como quem se espanta ante a números tão retumbantes.
E não são apenas os índices de 2009 que chocam. O desempenho de Hartung durante seus dois mandatos (2003- 2010), não podemos dizer que é o pior desde a colonização do Estado, mas é o mais sangrento desde 1980, quando o sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, que coordena os estudos do Mapa da Violência, passou a fazer o levantamento no País.
A propósito, a série histórica recortada no Mapa da Violência 2014, lançado nessa quarta-feira (2), mostra a evolução dos homicídios no País justamente de 2002 a 2012.
Esse amplo recorte permite analisar o desempenho do governo Paulo Hartung na área de segurança. Os números também confirmam que as críticas de Casagrande ao antecessor não são meras lorotas eleitoreiras.
De acordo com o Mapa da Violência, 14.306 pessoas (pode ser muito mais) foram assassinadas durante os oito anos do governo Hartung — uma média 1.788 mortes/ano, contra uma média de 1.649 de Casagrande, nos seus três primeiros anos de governo (incluímos 2013 nos dados do Mapa). Em percentuais, isso quer dizer que o socialista reduziu os homicídios em 8,5% em relação ao antecessor.
Se considerarmos a taxa de homicídios por 100 mil habitantes, o governo Hartung ostenta a média de 52 assassinatos por grupo de 100 mil; e Casagrande 46 — uma queda de seis pontos.
Índices à parte, o recuo conquistado por Casagrande ainda é tímido, mas já é um resultado positivo. O problema é que essas pequenas oscilações ainda são imperceptíveis para a população, que continua com medo de dobrar uma esquina e se deparar com a violência. Basta olhar o dado do Mapa para perceber que o Espírito Santo era o segundo estado mais violento do País em 2002 e continua na mesma posição dez anos depois.
É verdade que a reposição dos efetivos das policias Civil e Militar, que foram abandonadas no governo Hartung, é uma ação importante do atual governo, assim como o Estado Presente, que não é nenhuma maravilha de programa, mas já é algum avanço, se consideramos que a gestão passada, além de sucatear as policias, não desenvolveu um programa sequer de enfrentamento à violência.
Mesmo reconhecendo que Casagrande já fez muito mais na área de segurança — e os números do Mapa da Violência confirmam isso — em três anos do que Hartung em oito, resultados mais palpáveis só passarão a ser notados daqui a quatro ou cinco anos.
Percebam o exemplo de São Paulo, também retratado no Mapa da Violência. O estado paulista, em 2003, convivia como uma taxa de 36 homicídios por 100 mil. Em 2012, essa taxa, que vem caindo ano a ano, foi reduzida pela metade. Se Hartung, que assumiu o governo do Espírito Santo em 2003 com uma taxa de 51 homicídios, enfrentasse a violência com o mesmo empenho que os paulistas, entregaria o governo para Casagrande com 25 homicídios por 100 mil, quatro pontos abaixo da atual média nacional (29/100 mil).
O problema é que o pacto de silêncio selado com Hartung pode custar caro ao socialista. É difícil para Casagrande explicar à população por que demorou tanto tempo para revelar que seu antecessor ficou com os braços cruzados enquanto mais de 14 mil cadáveres eram empilhados no Departamento Médico Legal.
O maior desafio de Casagrande, não só na segurança, mas também em outras áreas vitais à população como educação, saúde e mobilidade urbana, que foram igualmente negligenciadas pelo antecessor, é conseguir passar a régua e explicar onde termina o governo Hartung e onde começa o seu governo. Com relação à segurança, já ficou um pouquinho mais claro.