O preceito básico da guerrilha é: fustigue o inimigo e o faça recuar. Recue e avalie. Se ele ataca, recue e se proteja. Se ele recua, ataque. E assim constrói-se o jogo. Ouvi isso ao longo da apuração de meu livro-reportagem sobre a Guerrilha do Caparaó, a primeira contra a ditadura militar no Brasil. E pude ver a mesma tática ao longo da vida em todas as áreas. Na propaganda, por exemplo.
Mas não estamos mais falando de tempos de exceção, mas da vida no Estado de Direito, fundamentado em princípios da democracia, que, se não é o melhor que se pode ter, é o que de melhor se pode dispor em termos de vida no mundo atual. A passeata dos 100 mil em Vitória demonstrou que “o gigante acordou”, como tanto se propagou. E pelo Brasil inteiro foi assim.
As instituições sentiram a força popular, o Executivo Federal sentiu, o Congresso sentiu, o Judiciário sentiu, a imprensa sentiu. Houve quem tenha entendido a voz das ruas, e foi ao seu encontro, e quem tenha apenas temido. Mas houve e há também os que se aproveitam do momento, organizadamente ou não. A legitimidade do povo nas ruas está sob risco, e isso os articuladores das manifestações populares precisam avaliar com urgência.
Mergulhei, por força de minha obsessão por escrever sobre o fato histórico de Caparaó, na busca da compreensão dos conflitos políticos, ideológicos e de princípios por trás daqueles fatos de cinco décadas atrás. Não me tornei um especialista, seria muita pretensão. Acho muito difícil que alguém possa dizer que já aprendeu tudo o que tinha de aprender, mas, para mim, foi e é um privilégio poder avançar na compreensão desses fenômenos.
Confesso, sou apenas um aprendiz. Aprendo muito mais do que ensino, até porque não tenho a pretensão de ensinar. Exatamente por isso, e baseado nos princípios que utilizei ao longo de dez anos para escrever o livro, reservei-me nas últimas semanas, no olho do furacão, a ouvir muito mais do que falar. E, especialmente, nos últimos dias, procurei ouvir muito e já posso começar a sintetizar algumas ideias, enquanto há tempo.
O Brasil nunca mais será o mesmo depois das manifestações populares desencadeadas por uma insatisfação pontual: 20 centavos. Sabem aquela história da gota d´água que faz transbordar o balde? Os 20 centavos foram essa gota que fez transbordar, não o balde, mas romper um dique. Havia e há muita coisa represada, muitas angústias e sentimentos reprimidos e que estão tendo vazão agora.
É preciso coragem, sim, mas é necessário sabedoria. Minhas observações começaram a se fechar quando conversei com um especialista em Direito e movimentos populares, comprometido, historicamente, com as causas sociais no Estado e no Brasil, e um especialista em segurança pública – especialista mesmo, com décadas de estudo e trabalho -, com larga experiência nacional e até internacional. Ambos concordaram: é hora de uma profunda reflexão.
O espontâneo movimento popular pode perder sua legitimidade a partir dos fatos que estão ocorrendo em sua periferia. Não discuto, neste momento, os diferentes aspectos do abandono das periferias sociais, mas, sim, a utilização dessa massa com objetivos escusos.
Todos os especialistas que ouvi estão convencidos de que há elementos nos tumultos, aqui e acolá: há líderes criminosos comuns incentivando a desordem, há criminosos agindo por conta própria, mas nenhum dos especialistas descartou a hipótese de a população periférica, da geografia das cidades e das classes sociais e econômicas, estar sendo usada e até estimulada, financeiramente, por grupos de ultradireita ou de ultraesquerda para tumultuar o tão belo exercício de cidadania, com objetivos tão incertos quanto a difusão de reivindicações das manifestações populares.
Os estudantes foram os vetores iniciais das manifestações e podem, neste momento, apesar de jovens e em maturação, ser os catalizadores da sabedoria, que talvez venha faltando aos adultos que ocupam postos chave de comando político e insatisfazem a Nação.
Vem do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Secção Espírito Santo (OAB-ES), Homero Mafra, uma posição que pode ajudar em muito a manter a legitimidade da mobilização popular: é hora de refletir e repensar os rumos.
Os dirigentes públicos e privados já sentiram do que o povo brasileiro é capaz. Que tal, em vez de dar palco para a ação dos mal intencionados, manter uma vigília nacional? Que tal os estudantes convocarem para uma vigília permanente no campus universitário? Certamente, todos os demais setores vão seguir os mesmos passos: a OAB manterá estado de vigília, os sindicatos manterão estado de vigília, os movimentos sociais manterão estado de vigília. E aqueles que decidem vão saber: se vacilarem, a gente volta para as ruas com força redobrada.
Aliás, “palmas” para os últimos governantes do Espírito Santo, que esvaziaram os movimentos sociais, não lhes dando voz, enquanto se articulavam com as elites. O dique se rompeu. Estão satisfeitos? “Palmas” para aqueles que, em nível nacional, cooptaram e seduziram líderes de entidades e movimentos sociais e desarticularam a sociedade civil organizada.
Estão satisfeitos agora com a acefalia das ruas? Vocês são os principais responsáveis por isso, do mesmo modo que sabemos que os militares no poder por mais de duas décadas “mataram” o surgimento de novas lideranças políticas decentes no Brasil, deixando esse caos que aí está. Foi para isso que tantos lutaram, investiram décadas de suas vidas e alguns muitos até mesmo perderam a própria vida?
É hora de dar lugar à sabedoria. Não é hora de pensar somente em si, porque isso aqueles que agem à margem do legítimo movimento de massa já estão fazendo.
José Caldas da Costa, jornalista, escritor, licenciado em Geografia

