Carlos Antonio Uliana*
“De repente a vida começou a impor-se, a desafiar-me com seus pontos de interrogação, que se desmanchavam para dar lugar a outros”. Esta foi a marca da vida de Carlos Drummond de Andrade, sempre desafiando, polemizando, inovando, por meio de suas poesias, contos e crônicas.
É impressionante a capacidade do poeta em escrever sobre temas os mais diversos, que a gente lê hoje e continuam tão atuais. Poemas como o Hino Nacional, Mãos dadas, E agora, josé , Confidências de Itabirano, Canção amiga, Também já fui Brasileiro, Aos Namorados do Brasil, Infância e centenas de outros.
Contos como O preço do feijão, O nome do banco. Por isso, nestes 20 anos de sua ausência (nos deixou em 17 de agosto de 1987) a maior contribuição que se pode dar a qualquer leitor para que possa compreender um pouco da sua obra é ler, ler e reler Drummond.
O próprio poeta ao ser convidado pela revista Acadêmica para escrever a autobiografia publicada em Confissões de Minas (ensaios e crônicas) em 1944 disse: “Sendo inevitável a biografia, era preferível que eu próprio a fizesse… evitando assim qualquer adjetivo ou palavra generosa com que o redator quisesse, sincero ou não, gratificar-me”.
Tentar decifrá-lo por inteiro é um desafio constante para muitos escritores, pesquisadores e críticos. Tem o indivíduo, em Poema de sete faces;Também já fui brasileiro. Tem a terra natal, em Cidadezinha qualquer; Confidência de itabirano; Romaria… Tem o amor, em Quadrilha, Toada de amor, Namorado Ter ou não Ter, Balada do amor, Quero me casar… Tem a família, em Infância. As obras de Drummond também contemplam a questão social e política.
É a imensidão da obra de Drummond. “Eu não sabia que minha história era mais bonita que a de Robinson Crusoé” (Infância). “Quero a paz das estepes, paz dos descampados, a paz do pico de Itabira quando havia pico de Itabira, a paz de cima das agulhas negras, a paz da mina mais funda e esboroada de morro velho, a paz da paz” (Apelo a meus dessemelhantes em favor da paz) “Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus companheiros. Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças” (Mãos dadas).
Drummond vai continuar nos ensinando que amar se aprende amando, e por isso a melhor maneira de homenageá-lo e ter ele presente no nosso dia a dia é ler, ler e reler Drummond.
* Carlos Antonio Uliana é sindicalista (Sindfer-ES)

