Se viram no aeroporto, essa ilha isolada no tempo, estação de lugar nenhum, tanto se vai como se chega, tanto se ri como se chora, o que não é culpa de ninguém. O destino tramou o enredo certo na hora errada, pois iam para lugares opostos, e nenhum dos dois sabia a data de retorno. Um breve encontro, uma rápida troca de emails, sabendo ambos que não mandariam a primeira mensagem. Nenhum dos dois deu o número do celular, o que evitaria os transtornos futuros. Mas coincidência e dor de barriga não acontecem uma vez só.
Foram, voltaram, quase se esqueceram. Até a próxima outra viagem, para destinos opostos e distantes. Desta vez tiveram tempo para um cafezinho no bar da esquina, se é que aeroporto tem esquina. Ela comprou chicletes para a dor de ouvido que sempre tem nas aterrissagens, ele comprou uma revista para ler na viagem. Chamada para embarque. Riem-se ambos, disfarçando a tristeza. Breve troca de beijinhos, e nenhum dos dois repassou o endereço do email. E tudo acabaria aqui, pois um raio não cai três vezes no mesmo lugar.
Mas o destino resolveu ser mais explícito, ata ou desata essa história de uma vez. E provoca um tumulto no aeroporto – terra de ninguém. Conhece alguém que nasceu, morreu ou casou num aeroporto? Já ouvi contar histórias, mas ver nunca vi. O tumulto foi ocasionado por um estranho pacote abandonado na área de check-in, na hora de maior movimento, véspera de feriadão. A polícia é acionada e os voos suspensos. Foram para outro bar, onde conseguem uma mesa e duas cadeiras disponíveis. Ele pediu cerveja, ela pediu refrigerante diet, não dou o nome porque não me pagam a propaganda.
O mistério do estranho pacote levou duas horas para ser esclarecido, e a rotina anônima de um aeroporto movimentado em vésperas de feriadão volta a se agitar como uma colmeia invadida pelo ladrão de mel. Duas horas não são nada, convenhamos, duas voltas rápidas dos ponteiros do tempo, que nem sabem quantas voltas dão eternidade a fora. Mas tempo suficiente para Murilo e Magda se conhecerem. Em volta de um prato intocado de pão de queijo, descobriram com tristeza que, desta vez, as viagens eram sem volta.
Acabou meu estágio na empresa, ela disse. Acabou meu relacionamento sem deixar saudades, ele disse. Na mesa ao lado, uma jovem chora copiosas lágrimas – fosse para onde fosse, não queria ir. Coincidência 1, ia para a mesma cidade de Murilo; coincidência 2, queria ir para qualquer lugar do planeta, menos para onde a passagem deixava ir. Por que vai, então? Volto para um marido que odeio. Por que não fica, então? O irmão dele, que também odeio, mora aqui e me mata se eu não for. São dois trogloditas.
Num instante a vida volta ao normal em um aeroporto onde tudo é transitório. As chamadas para os voos soam apressadas nos alto-falantes. Murilo e Magda embarcam no mesmo avião, ela com a passagem da outra passageira, cujo nome não será revelado por questão de segurança. Até hoje o marido e o irmão a procuram. Ah, o pacote suspeito que provocou grandes reviravoltas nessas vidas pequenas foi apenas um amontoado de fraldas sujas que a mãe esqueceu de jogar na lixeira.

