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Insignificantes

Os prós dizem que o cinema estava lotado, já os contras…

Esse pomposo título não é nome de conjunto hip hop nem do futuro filme do Wagner Moura. Quando a temporada dos prêmios de melhor disso e pior daquilo vai chegando ao fim, nos damos conta de que tem mais gente no palco do que na plateia – nós, os insignificantes, que assistimos deslumbrados ao desfile dos coroados e premiados, sejam eles vencedores ou vencidos – são todos abençoados pelas nove musas do Olimpo.

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Nós, os insignificantes, herdamos o voto de Minerva, assistindo ou ignorando o que a mídia nos impõe: deixo o filme na metade ou vou até o final? Somos os pagantes na bilheteria, a voz que aciona o ambicionado boca-a-boca, promovendo os filmes que consideramos imperdíveis. Em tempo: vou sugerir à distinta Academia que inclua essa nova categoria nas  próximas premiações: o Boca-a-Boca, a promoção gratuita que pode elevar um filme sem astronômico orçamento à ambicionada categoria dos mais-vistos.

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Nós, os insignificantes, somos continuamente assolados por esse tisunami de candidatos a ricos e famosos: decidimos eleições, criamos mitos e influenciadores, elegemos best-sellers e blockbusters. Já viu esse filme? Não perca! ou Não perca tempo! Temos também a opção do Não vi e não gostei, muito usado pelos mal-humorados e alucinados. Uma qualificação muito em moda atualmente: os prós dizem que o cinema estava lotado, os contra dizem que só tinha mascarados na plateia.    

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Exibido por Lumiére pela primeira vez em 1895, no Grande Cafe de Paris e para um público pagante, o cinema não teve a sorte de ganhar uma generosa deusa só para ele no panteon das nove musas gregas. Mas soube se apropriar das benesses de todas elas: música; poesia e comédia; história e sátiras teatrais (redundância?); erotismo e beleza; poesia épica; dança e coro de vozes; astronomia; tragédia; cantos religiosos. Todas essas modalidades foram assimiladas e ampliadas, tornando-se parte integrante dos filmes que assistimos. 

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Embora fossem fonte de inspiração para os mortais, as musas eram arrogantes e vaidosas…mas o que seria de nós sem essas deusas que invadem nossos lares sem cerimônia, a qualquer hora do dia e da noite? Houve um tempo em que nós íamos ao cinema, e era raro alguém sair no meio do filme. Hoje o cinema vem até nós, e temos o dom de apertar um botão, como um deus invejoso: Não gostei / Adorei – como se tivéssemos uma deusa grega de plantão ao lado da poltrona.

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Os insignificantes sabem que são manipulados, explorados, iludidos, enganados. Se a mocinha morre no final do filme, se o candidato não cumpre as promessas de campanha, se o livro não entra na lista dos mais-vendidos, se o xarope não cura e a roupa não cai bem…mesmo assim continuamos obedecendo a propaganda que se insere em nossas mentes como um vírus invisível. Resistir quem há de?

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