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Instituto Nacional Imoral da Mata Atlântica

A criação do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA) à custa da extinção do Museu criado pelo Patrono Nacional da Ecologia, por si só, é de uma imoralidade estupenda. 
O longo caminho até esse crime contra o patrimônio cultural foi repleto de ações tão indecorosas quanto seu indigno desfecho, as quais contaram com o aval de incentivadores do desmanche do Museu Mello Leitão (atualmente concentrados no grupo MoveINMA), apoiadores (o próprio Museu Mello Leitão, a sua associação de amigos Sambio e o Ibram), intermediadores (deputados federais Paulo Foletto e Lelo Coimbra) e do principal beneficiado, o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. 
Se por um lado esses grupos compartilham a preocupação com uma uníssona retórica de camuflagem do desmanche institucional do Museu Mello Leitão desde o início do processo, por outro, cresce a cada dia a priorização de interesses próprios por parte de alguns de seus componentes. 
Atualmente, o grupo dos incentivadores do desmanche (MoveINMA) mostra-se preocupado com a garantia de que seus membros sejam selecionados pelo ministro Gilberto Kassab para compor a equipe de trabalho do INMA, uma situação agravada pela redução do número de cargos de alta remuneração (de 15 para três cargos DAS – Direção e Assessoramento Superior).
Essa situação perdurou devido à própria irresponsabilidade do grupo ao insistir no avanço às pressas de metas de criação do INMA sem correção de pontos falhos, como ausência de estrutura jurídica e orçamentária. 
As razões da pressa não são claras, mas o fato é que diversas fases do processo ficaram ausentes, como o comitê de transferência, que foi sendo adiado consecutivamente e deixou de acontecer – uma consequência ou mesmo indício de que a transferência foi ilegítima e apenas serviu para camuflar a extinção institucional do museu. 
Tais fatos colocaram em risco não só a instituição, como seu patrimônio, cuja alienação desconsiderou até mesmo o futuro das propriedades conjuntas, como é o caso da Estação Biológica de Santa Lúcia – onde encontra-se o jazigo de Augusto Ruschi –, propriedade conjunta com a Universidade Federal do Rio de Janeiro  (UFRJ), Museu Nacional e sua sociedade de amigos, que também foram mantidas longe do processo de transferência.
Curiosamente, essa preocupação dos incentivadores vem sendo explicitada ao tom de “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço” nos próprios documentos produzidos para camuflar os disparates do processo em redes sociais e no boletim científico do antigo museu. Uma dessas publicações cobra o “diálogo e a transparência” como pilares fundamentais na idealização futura do instituto. Logo o diálogo, por quem deixou a população e instituições proprietárias de fora da discussão (não houve sequer uma audiência pública a respeito do processo de extinção do patrimônio de utilidade pública estadual e municipal). Logo a transparência, por quem até os dias de hoje dialoga sob a fajuta retórica de desmanche do legado de A. Ruschi, com justificativas escalonadas que vão de mentiras a interpretações distorcidas das próprias palavras do cientista. 
Embora o descaso com o Museu Mello Leitão por parte de Gilberto Kassab e seu Ministério seja notoriamente alinhado à retórica dos incentivadores, apoiadores e intermediadores da extinção institucional, a consolidação da implementação do Instituto alienador caminha para a virada de uma nova página do trâmite: a nomeação de seu primeiro diretor. 
Nessa nova fase serão tomadas as diretrizes do instituto, cujos objetivos remetem ao planejamento nacional do MCTIC. Já o ministro Kassab precisará ser cauteloso, pois o alto grau de afinidade de seu escolhido com os fatores morais e éticos desrespeitados no desmanche do Museu pode comprometer o sucesso do INMA, o que a curto, médio e longo prazo tornaria o INMA uma instituição tão ordinária quanto seu processo de criação. 
Algumas frases que escondem verdades abomináveis do processo de desmanche do Museu criado por Augusto Ruschi:
1) “A oportunidade de se ter um instituto dedicado ao tema como o Instituto Nacional da Mata Atlântica – INMA – é ímpar”.
Na verdade, ela é par (02). Uma oportunidade seria criar o INMA dentro do Museu, sem desmanchá-lo, o que atende à Legislação Brasileira de Museus e à Legislação de Proteção do Patrimônio de Utilidade Pública. Entretanto, o caminho seguido é, de fato, um caso raríssimo! Imagine só, ter o órgão que acolhe o Museu (Ibram), o diretor do Museu e sua sociedade de amigos dispostos a apoiar sua alienação ao MCTI. E ainda por cima um Senado disposto a aprovar a ação por votos que atropelam suas próprias leis – bem, essa última parte não é tão rara no atual cenário político do Brasil, infelizmente.
2) “Imprescindível que o novo instituto inclua abertura para o diálogo com a sociedade para se tornar facilitador e um centro científico democrático”.
Fatores imprescindíveis, como democracia e diálogo, deveriam anteceder a criação do instituto.
3) “Avançar sem perder a memória. Conservar o MBML, sua história e coleções”.
Nada representa a memória melhor que a própria instituição Museu Mello Leitão, que atualmente está no limbo.
4) “Em tempo de catástrofe, convém pensar em utopias”.
E se o leitor tiver dificuldade em se iludir, basta ler cegamente os itens anteriores.

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