É curioso como algumas pessoas têm a capacidade de inverter os papéis e passar de vilão à condição de vítima. É o que está fazendo o ex-secretário de Saúde do governo passado, Anselmo Tozi, que pede na Justiça indenização por danos morais ao deputado Euclério Sampaio (PDT).
A ação é de 2009, ano em que a saúde pública capixaba passava por um dos seus piores momentos. Faltavam leitos e os pacientes eram “atendidos” nos corredores. As emergências dos principais hospitais da Grande Vitória lembravam um cenário de guerra.
No São Lucas, um dos hospitais referência da Grande Vitória, era comum encontrar uma centena de pacientes nos corredores. Muitos no chão mesmo. Não havia macas para todos.
Médicos e enfermeiros, diante do caos, trabalhavam no limite, estressados, do jeito que dava. Impotentes para enfrentar o caos, alguns médicos passaram a fazer sistematicamente boletins de ocorrência nas delegacias. O documento era uma garantia para os médicos se isentarem da responsabilidade sobre as mortes, já que a superlotação e a falta de condições mínimas de trabalho estavam pondo em risco a vida dos pacientes.
Os noticiários traduziam o caos. Eram cada vez mais recorrentes notícias de pessoas que perdiam a vida aguardando atendimento no pronto socorro ou vaga na UTI. Nada funcionava direito na rede pública.
Desde 2007, quando assumiu o mandato de deputado, Euclério passou a ser um contumaz crítico de Tozi e Hartung – responsáveis diretos pela área da saúde. O deputado subia o tom das críticas à medida que os episódios de descaso no atendimento à saúde repercutiam na imprensa.
Euclério não estava exagerando. Reparem nesse desabafo de um médico do São Lucas, em 2007, quase à beira de um ataque de nervos: “Temos bons profissionais, mas não temos espaço para trabalhar. Não está dando mais, isso aqui está um inferno. Chegamos a um caos no hospital, principalmente na sala de trauma, que é o coração do São Lucas. Há quatro respiradores e não temos mais pontos de oxigênio na sala”.
A decisão de Tozi processar somente o deputado Euclério revela outra distorção. O ex-secretário quer penalizar o pedetista porque ele foi o único deputado que ousou criticar a saúde pública que estava levando vidas em vez de poupá-las.
Se os outros deputados não tivessem uma postura tão subserviente ao então governador Paulo Hartung, teriam se solidarizado às críticas de Euclério, que exigia melhorias na saúde pública para evitar mais mortes.
Em meio ao caos na saúde, em 2007, Tozi, que ainda era Tose, foi à Assembleia fazer a prestação de contas da pasta. Para justificar os maus resultados, o secretário transferiu a culpa para o governo Lula, reivindicando repasses da União.
Em apoio ao secretário, o deputado Theodorico Ferraço (DEM) propôs que os gestores da saúde do Estado fizessem uma greve branca contra o governo federal. “Vamos acabar com a chantagem e molecagem com a saúde pública no País”, discursou.
O apoio dos deputados ao então secretário foi geral. Do contra, e a favor do povo, só Euclério, que responsabilizou o então secretário pelas mortes ocorridas nos hospitais públicos.

