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Isso Vale?

Principal responsável pela poluição do ar que prejudica os moradores da Grande Vitória, a Vale brilhou no evento do governo do Estado que marcou a parceria para operação do Centro Capixaba de Monitoramento Hidrometeorológico (CCMH). A ação faz parte do Programa de Adaptação às Mudanças Climáticas e “cai como uma luva” para a estratégia de “lavagem verde” promovida pela mineradora, incluída recentemente na lista das 50 maiores poluidoras do mundo. Irônico? Contraditório? Tudo isso e mais um pouco.
 
A posição da Vale no ranking faz parte de um levantamento feito pela Carbon Disclosure Project (CDP), organização independente que monitora as principais empresas relacionadas ao aquecimento global. Do Brasil, somente a Vale e a Petrobras entraram no bolo. Sem dúvida alguma, contribuíram para os índices elevados de emissões que deram à empresa mais este título negativo, as usinas instaladas na Ponta de Tubarão.
 
Para selar a parceria, muita pompa e circunstância, como sempre. As presenças principais foram a do governador Renato Casagrande e do presidente da Vale, Murilo Ferreira. A mineradora ajudou a construir o “mais moderno Radar Meteorológico da América Latina”, vendido como o projeto de destaque do Centro Capixaba de Monitoramento Hidrológico, onde ela também terá participação, com instalação de 25 Estações Hidrológicas. Os investimentos anunciados são de R$ 20 milhões do governo e R$ 40 milhões da Vale. Pelo menos, é o que dizem. 
 
E onde está localizado o tal Radar? No Portocel, terminal portuário da Aracruz Celulose (Fibria), outra poluidora que emite gases do efeito estufa e desmata a torto e a direito a mata nativa, o que contribui para o aquecimento global. Visita técnica realizada outro dia por lá também contou com a presença de Casagrande e sua equipe, de representantes da Vale e do Portocel. 
 
Mas não se fala em dinheiro da Aracruz no negócio, a empresa só “colhe os louros”. Não é sempre assim, a empresa vive firmando “parcerias” e mais “parcerias” com o governo do Estado. Faz parte do jogo.
 
O dinheiro aplicado pelas poluidoras em projetos como esses é uma estratégia que pretende pautar a atuação das empresas no compromisso com o enfrentamento dos desastres naturais e das mudanças climáticas. Elas participam ainda de programas de disseminação de informações sobre emissões e em fóruns de discussão sobre a temática. A ideia é exatamente “mostrar serviço” e tentar, assim, esconder os impactos que gera nos locais onde está inserida.
 
A mineradora, principalmente, tem mirado seu alvo para a questão, já que registra, a cada ano, aumento preocupante de suas emissões em todo o país – no Espírito Santo, então… Motivo pelo qual investe pesado em propagandas. A Justiça nos Trilhos, entidade que acompanha passo a passo da empresa, outro dia apontou a dimensão do que representa essa maquiagem: R$ 180 milhões por ano, somente em marketing.
 
E aí Vale tudo, até prometer redução de 5% de suas emissões globais de gases do efeito estufa (GEE) projetadas para 2020. Mas, enquanto engana a população, posando bem na foto ao lado de representantes do poder público, a empresa tenta licenciar sua oitava usina em Tubarão, o que vai agravar – e muito – os índices de emissões na Grande Vitória. Conta, para isso, com a ajuda de sempre do seu maior parceiro, irmão camarada, o governo do Estado. 
 

Manaira Medeiros é mestre em Políticas Públicas e Desenvolvimento Local e especialista em Gestão e Educação Ambiental

Fale com a autora: [email protected]
 

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