Há 16 anos Século Diário publicava seus primeiros conteúdos na internet com o compromisso editorial de produzir um noticiário voltado exclusivamente à cobertura regional.
Apesar de ser um nativo digital — buscou a plataforma justamente para escapar dos altos custos de produção do impresso —, o jornal sempre teve consciência de que não teria pernas para fazer a cobertura nacional dos fatos com produção 100% autoral, já que não queria ser, tampouco, um mero replicador de conteúdos comprados das agências de notícias.
Apesar do recorte editorial, vez ou outra o jornal esbarra na pauta nacional, especialmente quando a notícia permite a contextualização com os acontecimentos locais. Mas aí veio a Lava Jato, o impeachment e todos os seus coadjuvantes. O assunto tomou conta do noticiário (local e nacional) e, compulsoriamente, levou o debate para a sociedade.
As ruas se dividiram em dois blocos: os de opinião contrária ao impeachment, que passaram a ser identificados com a corrupção, com a bandidagem, que jogam contra o País; e os favoráveis à saída da presidente, as chamadas “pessoas de bem”, que integram a marcha da moralidade que pretende livrar o País da corrupção.
No embate entre “mortadelas” e “coxinhas”, os leitores, como não poderia ser diferente, têm exigido um posicionamento do jornal sobre o impeachment da presidente Dilma, que deve ter seu desfecho ainda esta semana. A Comissão Especial da Câmara, nessa segunda-feira (11), deu o pontapé inicial ao processo de impeachment. O relatório do deputado Jovair Arantes (PTB-GO) foi aprovado por 38 X 27. O governo agora concentra toda sua energia para garantir os 172 votos necessários para barrar o processo na Câmara. A briga pelos votos dos indecisos mobilizará oposicionistas e governistas nos próximos dias, com o grand finale programado para domingo (17).
Nos últimos meses muito se escreveu e se falou sobre o processo de impeachment. Ponderando as opiniões favoráveis e contrárias ao impeachment da presidente, Século Diário se posiciona contrário ao impedimento de Dilma porque considera que o processo, da forma como vem sendo manobrado, é uma ameaça à democracia e ao Estado de Direito.
O jornal compartilha muito da visão do juiz aposentado e escritor João Baptista Herkenhoff. Em seu último artigo (Dilma pode cair?), Herkenhoff esbanjando equilíbrio e serenidade ao fazer uma abordagem didática sobre o tema, esmiúça o Art. 85 da Constituição para mostrar que a presidente, pelo menos até o momento, não cometeu crime algum — condição sine qua non para justificar o seu impedimento.
“Os acusadores têm afirmado que a presidente atentou contra a probidade da administração. Entretanto, segundo se viu até este momento, não está provado que Dilma tenha cometido os deslizes que lhe são atribuídos ou, na linguagem popular: não se provou que Dilma é desonesta”, pondera Herkenhoff. E acrescenta: “É injusto imputar a ela essa pecha, mesmo entendendo que Dilma não tem demonstrado a competência exigida pelo cargo, nem a habilidade requerida no manejo do complicado xadrez político”.
Nesses momentos de insânia é prudente se ater ao didatismo para não confundir alhos com bugalhos. A enxurrada de desinformação que toma conta das redes sociais só serve para rebaixar o debate político.
Nessa massa de desinformação que se formou na esteira das redes sociais, muita gente acredita que Dilma está na iminência de sofrer impeachment por causa da Lava Jato. Essa informação foi tão torcida por boa parte da imprensa, que uma pequena parcela da população tem conhecimento sobre o teor do relatório votado ontem (11) pela Comissão Especial da Câmara ou que o processo segue agora para o plenário da Câmara e que ainda tem de ser apreciado pelo Senado.
Utópico crer que o cidadão médio tenha compreendido o que são as tais “pedaladas fiscais” — mote que embalou o pedido de impeachment da presidente. Quem se importa com o alerta de Delfin Netto:“pedaladas” são dadas por aqui desde os tempos de Dom João Sexto”.
Mas a espetacularização das investigações, os “vazamentos seletivos” das delações — que se tornariam nulas em qualquer sistema jurídico sério do mundo — são festejados simplesmente como mais um ato heroico do juiz Sergio Moro. A essa altura do campeonato, ninguém se importa com a legalidade. O que importa é que o senso comum diz que Dilma e Lula são bandidos e devem ser banidos em definitivo da vida pública. E o caminho mais curto para alcançar esse objetivo é o impeachment e ponto final.
Esse, com certeza, é um caminho perigoso para os que cultuam a democracia como uma conquista valiosa que não pode ser ameaçada. É preocupante saber que a discussão insiste em gravitar no campo moral. Quando Sergio Moro defende que a corrupção se combate com a opinião pública vigilante, o juiz da Lava Jato transfere tudo para o subjetivo campo moral. Como bem lembrou Jânio de Freitas, em artigo publicado na Folha (10/04/2016), para o jornalismo, principalmente, é sempre um risco encampar acusações morais sem a segurança necessária.
É assim que entendemos.

