A recuperação de parte razoável do antigo território indígena de Aracruz, no norte do Espírito Santo, deve-se aos próprios índios Tupinikim e Guarani, que puxados por suas lideranças, souberam se organizar para combater os invasores e os seus cúmplices. Leia-se Aracruz Celulose (Fibria), os governos estaduais e municipais, a classe política, e o Judiciário.
Se enfrentar uma transnacional do porte da Aracruz já era uma temeridade, imagine com ela associada à tamanha estrutura de poder?
Foi uma luta árdua, com cinco décadas de duração, marcada pela criminalização, humilhação e violência contra os povos indígenas, assim como ficou registrada a chegada da Aracruz Celulose ao Estado no período da ditadura militar. Mas os índios nunca desistiram.
A entrega da última escritura pública de retomada das terras encerra um longo ciclo de injustiça histórica contra os verdadeiros donos do território explorado pela Aracruz Celulose. Oficialmente, ficam registrados como pertencentes aos Tupinikim e Guarani do Estado 18.154,93 hectares, de um território original de 40 mil.
Na lista de omissões e articulações contrárias aos índios não se salvou ninguém, a não ser os movimentos sociais e raros representantes do poder. Nem mesmo o governo Lula, de quem se esperava alguma velocidade na reparação do erro, considerando a trajetória do PT. O decreto homologando as terras indígenas somente foi assinado no apagar das luzes do segundo mandato do petista, em 2010, mesmo assim, após muita pressão e enfrentamento. De lá até a escritura, outros cinco longos anos se passaram.
Era forte o movimento dos poderosos contra a recuperação das terras indígenas. E ainda é. A ofensiva hoje vem principalmente da bancada ruralista do Congresso Nacional, que tenta entregar as terras indígenas ao agronegócio, retrocedendo em anos de luta.
Enquanto as ameaças aos territórios indígenas são constantes, omite-se o que deveria ser prioridade no trato da questão: o debate sobre os impactos irreversíveis à mata atlântica gerados pelos plantios de eucalipto, a infertilidade do solo, o fim das terras agricultáveis, e as violações aos direitos humanos.
No Espírito Santo, a Aracruz Celulose marcou seu nome na degradação ambiental e episódios de agressões a índios, quilombolas e pequenos produtores rurais. Mas nunca precisou responder por seus crimes, muito menos pagou por eles. Pelo contrário, foi colocada no pedestal por governos, políticos e grande imprensa. Não por coincidência, sempre figurou como uma das principais financiadoras de campanha eleitoral.
Assim como registrou o cacique Tupiniquim Jaguareté, foram importantes na luta pela retomada do território no Estado a participação dos não indígenas. Durante esse longo período, os índios conseguiram atrair para a luta os movimentos sociais, consolidando importantes parcerias. Mas como bons líderes, jamais abriram mão de comandar a luta de seu povo.
Século Diário, que testemunhou toda essa trajetória, saúda os povos indígenas e fecha esse ciclo com sensação de dever cumprindo em sua missão de dar voz às comunidades tradicionais no embate contra a Aracruz Celulose, levando informação à população.
Para as nações indígenas Tupiniquim e Guarani, fica a certeza de que venceram essa guerra, por terem confiado em própria capacidade de luta. Ainda há muito a se fazer, até que consigam recuperar a autonomia das aldeias. O maior e mais importante passo, porém, foi dado.

