O Zé Mané todo mundo conhece; dispensa apresentações pois abunda por toda parte, em qualquer tempo ou mesmo sem tempo algum. Esse de quem ora vos falo serve cafezinho em um escritório de alta categoria, no andar mais alto do edifício mais valorizado da cidade. Desnecessário dizer, Zé nunca jamais: a) tomou o café das excelências; b) não é responsável pela compra do material necessário para servir o delicado fluido; c) não tem nada a ver com isso.
Salário mínimo, benefícios escassos, horários rígidos, assim mesmo Zé tá satisfeito. Com essa escassez sustenta a casa, manda os filhos pra escola, leite e pão com apresuntado nunca faltam pra meninada. A residência não fica muito distante do templo dos executivos, e além de outras vantagens adicionais, Zé não precisa enfrentar ônibus lotado ou não-ônibus em tempo de greve, essas coisas habituais na vida de outros Manés por aí.
Foi que um dia compraram xícaras novas, mais condizentes com o café importado da Colômbia. A fatura de uma dúzia de xícaras de porcelana francesa bateu em torno dos mil e alguma coisa. Ninguém sabe como a notícia chegou ao conhecimento da plebe ignara. Que, não mais que de repente, resolveu protestar: “Doze xícaras a $1.800 irreais saem em torno de $150,00 cada. Pro cafezinho?!”
O que começou com um simples bate-boca no horário de almoço se espalhou pelas redes sociais, e logo toda a empresa tomou conhecimento do que estava acontecendo no último andar. Uma faixa tamanho família foi esticada no estacionamento reservado ao altíssimo escalão: “Cadê o prometido aumento de salário do ano passado pro ano que vem?” Naturalmente a faixa foi imediatamente removida, e um aviso foi afixado na entrada dos subalternos: “Insatisfeitos, inconformados, invejosos e afins podem pedir demissão”.
Ao invés de acalmar os ânimos, o aviso foi considerado acintoso, e no dia seguinte um protesto lotou as ruas adjacentes, reunindo cerca de 10 mil pessoas. Não que a empresa tenha tal porte, mas familiares, amigos, correligionários e quem quer ver o circo pegar fogo vieram dar irrestrito apoio. A polícia foi chamada, os baderneiros foram presos, e algumas bombas de gás lacrimogênio botou o restante dos insubordinados pra correr.
Os funcionários foram avisados que atitudes violentas e ou anti-sociais não constavam do contrato de trabalho, e seriam todos demitidos se as manifestações prosseguissem. No dia seguinte houve um quebra-quebra no edifício de altíssimo nível, dando à empresa um prejuízo de dois milhões. Foi quando a alta chefia entendeu que precisava tratar a base da pirâmide com mais tato. E para acalmar os ânimos, prometeu rigorosas investigações.
Uma reunião de emergência foi convocada, onde ficou deliberado: a) aumento de $ 1,25 nos salários; b) cafezinho grátis, embora em copinhos de plástico; c) apuração das denúncias com punição dos culpados. A paz voltou ao reino, e passados alguns lerdos anos, o inquérito descobriu: a) quem solicitou a compra das xícaras; b) quem é ou era o responsável pelo material da cafeteria; c) quem é quem. O culpado, um tal de Zé Mané, foi sumariamente demitido.

