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Lá vem a noiva

Depois dos gastos obrigatórios e desnecessários, nesse fim de semana irei a um casamento. A noiva é filha de uma velha amiga, a cujo casamento também assisti. Não devia contar, mas a noiva de agora também estava presente em estado fetal, porque nos casamentos daquele tempo essas coisas não eram comentadas. Em sendo uma cidade pequena todo mundo sabia, mas os vestidos tinham pregas extras para disfarçar o volume revelador, e era como se ninguém soubesse –  oficialmente, os bebês nasciam de sete meses.
 
Os casamentos persistem nesses tempos de juntos-sem-laços e divórcios pela Internet, mas os de antes eram muito diferentes. O vestido era encomendado da costureira,  o modelo tirado de uma revista de moda ou copiado de alguma artista de cinema – A futura noiva: “Você” poderia ir ver o filme que está passando?  (No cinema, onde mais?) Quero um vestido igualzinho ao da Doris Day”. Darcília, a exímia costureira: “Vou, mas o preço do ingresso será adicionado ao custo do feitio”.
 
O sapato era mandado fazer no Albertassi, ou mandava-se forrar um sapato usado com o  tecido do vestido;  véu e grinalda eram com o Domingos Simão, gloriosamente instalado no alto do casarão. Os convites eram ao vivo e em suores – de porta em porta, faça sol ou faça chuva, sempre com amigas acompanhando a maratona. O noivo nunca ia junto. Se a dona da casa não estivesse presente, não podia deixar recado, tinha que voltar lá. Também não  podia encontrar na rua por acaso e fazer o convite.
 
Os salgados eram feitos na casa da noiva com a ajuda das vizinhas e uma ou duas cozinheiras ‘de mão cheia’ contratadas. As carnes mandava-se assar na padaria. Os doces finos eram feitos pelas Irmãs Borges. A festa era na casa da noiva, se tivesse uma boa área coberta; se não tivesse, era dentro da casa, com todos os móveis retirados e mesas e cadeiras emprestadas de bares ou restaurantes. Flores de laranjeira da única floricultura local, e nos casamentos mais finos, vinham de Cachoeiro, onde também era comprado o tecido do vestido de noiva.
 
Se a rainha da festa era a noiva, o rei da festa era o bolo. Por alguma lei não escrita, devia ser em andares – quanto mais fino o casamento, mais andares, sempre encimados pelos bonequinhos  casal de noivos. A escolha de tamanho, decoração, massa e recheios da parte comestível sob camadas de glacês exigia requintes de grandes especialistas – ou melhor, as doceiras que só faziam bolos de noiva. Deviam se chamar boleiras. E o noivo? Só precisa comprar o terno e a gravata.
 
Os casamentos  de hoje acontecem em salões de festas, clubes ou restaurantes, com número reduzido de convidados e com tudo incluído: comes-e-bebes, decoração e  bolo, que esse nunca perde a majestade. O convite foi comprado pela Internet  e enviado com a devida ou possível antecedência. Vestido e sapato são comprados online. Nos casamentos mais finos são encomendados de estilistas renomados, e com muito dinheiro, o vestido dos sonhos é feito ao vivo e a cores em famosos programas de televisão .
 
E o noivo? Só tem que comprar o terno na Internet e responder Sim, quando o padre ou o juiz perguntar se ele está ali para se casar com a noiva ou foi apenas ver a festa. A noiva de hoje, que se escondeu quietinha na barriguinha da  noiva de ontem, usa um vestido justo para realçar ainda mais a barrigona de sete meses, e os convidados trazem juntos os presentes da boda e do baby. E todos serão felizes para sempre… pelo menos nesse dia.

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