Plena quarta-feira, Miami está em estado de alerta por causa da indesejada visita de um furacão, que ameaça comparecer com força total. Ou talvez não, pois são temperamentais e mudam de rota e de ideia como mudamos nós de senhas. Ou deveríamos. No trabalho fecharemos ao meio-dia de uma quarta-feira ensolarada, só voltando na segunda, se tudo correr bem. As chuvas e ventos fortes devem começar essa noite.
E enquanto o monstro não chega, haja filas – os postos de gasolina têm filas dobrando os quarteirões. Os supermercados e afins estão com as prateleiras de produtos básicos totalmente vazias. O que acaba primeiro? água, banana, pão, queijos, enlatados, papel higiênico, velas e lanternas. Mais difícil, porém, é instalar nas portas e janelas os protetores de alumínio. Mais das vezes, para nada.
Mas até que tivemos um bom descanso, pois desde 2005 não fomos incomodados pela fúria meteorológica. Esse trágico ano bateu os piores recordes da história – foram 15 furacões, e o maior número de furacões na categoria 5, a mais violenta: Emily, Katrina, Rita, Wilma. Os nomes dos furacões se repetem, mas quando um atinge proporções catastróficas, o nome é retirado – em 2005, mais de 5 nomes saíram da lista. Esse ano foi também campeão de prejuízos materiais – 150 bilhões de dólares.
O que fazer num prolongado feriado se o Matthew realmente aportar na nossa área? Sem energia elétrica não temos fogão, micro-ondas, televisão, internet, telefone. Água a gente estoca, tanto para beber como para uso comum – as banheiras ficarão cheias. Sem geladeira os perecíveis perecem, o jeito é comer sanduíches e enlatados. Cozinhar só na churrasqueira, quem tem quintal ou mesmo varanda, embora seja proibido. O mais é ler, conversar, fazer palavras cruzadas ou sudoko. Se o tempo permitir, andar.
Os tanques dos carros foram devidamente abastecidos até o limite, e os mais cautelosos enchem latões com gasolina para reserva. As grávidas nos últimos meses de gestação podem ir para os hospitais, pois o aumento da pressão atmosférica pode antecipar a chegada dos rebentos. Sem aula, sem Ipads e joguinhos eletrônicos, as crianças descobrem uma opção há muito em desuso por essas bandas – sair para brincar na rua.
E assim vamos nós, os residentes da Flórida, nos adaptando a essa ameaça. Mais das vezes, essa trabalheira toda é desnecessária, e damos fracas a Deus. Mas se o pior acontecer, então é reunir a família, cachorros e papagaios, o kit sobrevivência e correr para os abrigos. Ou pegar o carro e fugir para regiões mais amenas. Até segunda.

