Já virou piada a utilização que o americano faz das garagens residenciais – o caríssimo carro do ano dorme ao relento, sujeito a chuvas e granizos, porque a garagem está superlotada de quinquilharias inúteis e baratas, que ninguém doa nem presenteia, não reutiliza, não recicla, não reusa nem joga no lixo.
E como no país do desperdício nem toda casa tem uma garagem para guardar o que não cabe nos armários, a opção são os modernos edifícios-depósitos que proliferam por toda parte, tão comuns como padaria no Brasil. Verdadeiros templos do consumismo desenfreado, são inúmeras salas onde ninguém mora, e só servem para engordar o bolso do dono. E não adianta tentar driblar os seguranças – não dá pra morar.
Os preços começam em $50,00 mensal por um cômodo com menos de três metros quadrados – condomínio de alta segurança, ar refrigerado central, elevador, acesso 24 horas com sua própria chave ou cadeado. Esses depósitos são um atestado do quanto nos apegamos a bens materiais, mesmo que já tenham deixado de nos servir há muito tempo.
A ideia não é tão nova assim. Num tempo em que havia espaço de sobra, as casas de outrora tinham porão e sótão, para onde subiam ou desciam os excessos, desnecessários, fora de moda, fora de uso, fora de clima e afins. Ali jaziam esquecidos no correr do tempo, alimentando os medos infantis e sustentando gerações de baratas, ratos e traças. Daí vinha a antiga crença de que os ratos nasciam de trapos velhos.
Imagino a poeira desses imensos cômodos sempre fechados, onde a vaidade humana se escondia em toda sua pequenez. E, claro, as alergias, subproduto desses paraísos dos ácaros. Ali tudo se guardava, na esperança de que as futuras gerações achassem alguma utilidade para o que deixou de ser útil no presente. Ou que poderiam se valorizar com o passar dos anos, e o supérfluo do momento viraria a fortuna dos bisnetos.
Hoje as casas viraram apertamentos e amontoamentos, e se joga fora até o necessário, simplesmente por falta de espaço. Ou aluga-se um cômodo extra nos edifícios de self-storage, onde também ficam esquecidos e nunca terão um fim condigno. Os objetos também se adaptaram à geografia do encolhimento, criando a produção em massa e descartável, tornando-se mais baratos, mais feios, mais frágeis.
O que um sótáo escondia? Um casaco de pele num lugar onde o clima nunca passou do moderado; a cadeira de rodas do bisavô morto há 50 anos; um saleiro de cristal que de há muito enviuvou do pimenteiro; um bule que perdeu as asas; uma panela que perdeu o cabo; o cinto que perdeu o vestido; a bandeja que perdeu a alça; um vestido de noiva nunca usado…
Espaço não falta e tem muito mais – um berço usado por três gerações; uma roda sem a bicicleta; uma bicicleta sem rodas; livros, papéis, documentos, receitas, desenhos, moldes de vestidos… tudo mofado e amarelado, esperando a casa cair ou ser demolida para dar lugar a um moderno edifício envidraçado, com pequenos cômodos onde se pode guardar os pertences que já não têm qualquer utilidade prática.

