Em matéria de manifestação de rua, o governador Renato Casagrande, teoricamente, tem a chance de aprender com os erros dos vizinhos paulistas e cariocas. O problema é que ele não tem aproveitado a oportunidade
As manifestações de rua chegaram primeiro em São Paulo e no Rio de Janeiro. Desses dois importantes centros urbanos, o fenômeno, com certo retardo, se disseminou país afora. Tanto é que os capixabas puseram o pé no asfalto pela primeira vez, quase dez dias depois do que paulistanos e cariocas.
Ao longo dos meses de junho e julho, quando as manifestações tiveram em alta nas principais cidades do país, o governador Renato Casagrande, até pela proximidade geográfica, teve oportunidade observar o fenômeno nos Estados vizinhos e antecipar suas estratégias. Mesmo porque, os manifestantes também estavam se inspirando nos vizinhos para organizar os protesto por aqui.
Os governadores de São Paulo e Rio, Geraldo Alckmin e Sérgio Cabral, não tiveram esse privilégio. Foram obrigados a enfrentar as ruas sem aviso prévio. No saldo, Cabral saiu bem mais desgastado do que o colega paulista, ou porque errou mais, ou porque os cariocas foram mais efetivos nos protestos.
Não por acaso, a cúpula do PMDB fluminense já admite a hipótese de Cabral antecipar sua saída do governo, deixando o caminho livre para o vice Luiz Fernando Pezão. O temor do partido é Cabral ficar com a imagem desgastada a tal ponto que inviabilize as pretensões de Pezão.
No processo de desgaste com as ruas, uma nova polêmica tem minado ainda mais a popularidade do governador do Rio. Os deputados governistas tentam aprovar uma lei para proibir o uso de máscaras em manifestações populares. A proposta divide os deputados, que temem colher nas urnas os efeitos de uma medida nada simpática aos movimentos. Na agitada sessão da Alerj desta terça (3), o texto recebeu emendas e votação acabou sendo adiada.
Por aqui, Casagrande, aproveitando o momento de latência dos movimentos, evita até tocar no assunto protesto. O governo ainda paga a conta das prisões arbitrárias ocorridas no ato do dia 19 de julho. Prova de que a relação Estado-movimentos populares continua bem abalada pôde ser comprovada, no final de agosto, durante a III Conferência Estadual de Promoção de Igualdade Racial.
Casagrande contrariou as recomendações de sua assessoria, como ele mesmo admitiu, e decidiu testar sua popularidade com os movimentos sociais. Se deu mal. O governador não poderia imaginar que uma das vítimas do “arrastão da polícia” receberia uma homenagem improvisada de um dos componentes da mesa, que ainda exigiria um pedido público de desculpas do governador às pessoas presas arbitrariamente.
O governador não pediu desculpas a Rafael Miranda, o Feijão. No discurso que fez após o desabafo do ativista, Casagrande também demonstrou que pouco aprendeu com as manifestações de rua ou com os erros dos governadores vizinhos.
Nos próximos dias, os movimentos capixabas prometem deixar o estado de latência para retornar às ruas. Não seria de se estranhar que proposta semelhante à dos deputados governistas do Rio – que proíbe o uso de máscaras em protestos – não inspire o governador capixaba e surja como projeto de lei na Assembleia do Espírito Santo.

