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Linchamento moral

Nessa segunda-feira (7), durante a Fase de Comunicações da Assembleia, o deputado Sandro Locutor pôde explicar aos colegas as viagens de representação que fez na condição de presidente da União Nacional dos Legisladores e Legislativos Estaduais (Unale) pelo Brasil e exterior. 
 
Mais cedo, o deputado havia sido entrevistado pelo Bom Dia ES, da Rede Gazeta — que há uma semana vem dando ampla repercussão ao caso em todas as suas mídias (TV, rádio, jornal e internet). No programa televisivo, Locutor explicou o trabalho da Unale e os gastos realizados nas viagens ao exterior em companhia da mulher. Quase um compacto do que seria, mais tarde, sua apresentação completa de 30 minutos no Legislativo estadual. 
 
Resumindo, tanto no Bom Dia como na Assembleia Locutor procurou esclarecer dois pontos: a importância do trabalho que desenvolveu à frente da Unale para o Espírito Santo e para o Legislativo capixaba; e o mérito da polêmica em si, ou seja, o uso de diárias pagas pela Assembleia nas viagens. 
 
Locutor não desmentiu o conteúdo das matérias publicadas em A Gazeta, mas criticou a linha editorial do jornal, que induz o leitor a concluir que houve malversação do dinheiro público. Isso fica muito evidente nas fotos que ilustraram as reportagens, nas quais o deputado posa ao lado da mulher com pontos turísticos ao fundo emmoldurando as fotografias que seriam postadas mais tarde nas redes sociais como recordações de viagem. 
 
Locutor, como havia feito no Bom Dia, admitiu que a mulher o acompanhou em algumas viagens ao exterior, mas garantiu que pagou as despesas dela com o cartão de crédito do casal, em seis vezes. No momento mais incisivo, cravou: “Não meti a mão em nenhum centavo desta Casa para ir passear”. 
 
É preciso destacar que desde o surgimento da polêmica despertada pelas matérias de A Gazeta, o deputado se apressou em dar respostas à imprensa e à sociedade, inclusive se antecipando ao Ministério Público, ao avisar que não vai esperar uma convocação oficial para prestar esclarecimentos ao órgão ministerial (nesta quarta, 8, a chefe do MP deve receber o deputado). Resta evidente que a preocupação do deputado é esclarecer os fatos. 
 
Mas, de outro lado, seus detratores não estão interessados em suas explicações. Basta examinar as manchetes dos jornais desta terça (7) sobre o caso para perceber que o deputado já foi julgado e aguarda agora a condenação da opinião pública. Avaliando o conjunto de matérias publicadas pelo jornal A Gazeta, a conclusão que se tira é a seguinte: o deputado é mais um político espertalhão, que não tem escrúpulos com a coisa pública. Um oportunista disposto a utilizar o dinheiro público para fazer turismo na Europa. Mais grave, e com a mulher de “penduricalho”. 
 
Como há um desejo latente que vem do Palácio Anchieta para linchar moralmente o deputado, por mais que ele se esforce para esclarecer os fatos, não será ouvido. Uma boa parcela da população, depois de parte da imprensa martelar que o deputado usou dinheiro público para fazer turismo, já está fazendo seu juízo de valor sobre a conduta do deputado. 
 
Neste momento, a maioria é imune aos relatos do deputado quando ele dá a entender que pode estar sofrendo represália do Palácio Anchieta. “Estou sendo perseguido porque ultimamente fiz duras críticas ao corte de 40% do orçamento da área da segurança e disse que a Secretaria de Saúde virou um balcão de negócios”.
 
Não existe coincidência. Se no ano passado a educação roubou a cena na Assembleia e o neófito deputado Sérgio Majeski (PSDB) se notabilizou como defensor número 1 da educação no Espírito Santo, causando um desgaste enorme para a imagem do governo ao criticar seu principal programa social, este ano é Sandro Locutor que partiu para a cruzada contra o governo do Estado com a bandeira da transparência, exigindo incisivamente informações da equipe de Hartung
 
O deputado que já havia feito o papel de algoz de Paulo Hartung ao requerer informações sobre as viagens da primeira-dama Cristina Gomes, em 2014, agora paga a conta corrigida a Hartung na mesma moeda. A diferença é que Sandro Locutor não tem o controle do arranjo institucional nem tampouco influência na imprensa para fazer prevalecer sua versão dos fatos. Restou ao deputado se defender com as armas de que dispõe: a transparência. Mas, com a Lava Jato funcionando de pano de fundo para execrar todos a qualquer indício de político desonesto neste País, a tolerância com esse tipo de denúncia por parte da população é zero. Basta uma fagulha para provocar o linchamento moral iminente. 

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