Ambas duras, por certo. Mas quem, nos dias de hoje, ainda se delicia com um bom naco de rapadura – de gengibre, de mamão, de coco, de leite? Alimento 100% natural, nossa velha rapa é açúcar em estado bruto, compacto que nem aquivo ZIP. As campanhas contra o açúcar refinado se intensificam, há mesmo quem garanta que o usuário é um suicida em dose homeopática, mas a doce rapadura faz bem para a saúde e não engorda. Garantem os fabricantes.
Ao contrário do açúcar branco e seus substitutos, como Stevia, sacarina, sacarose, aspartame, e etcétera, a rapadura é recomendada para todas as idades e não tem efeitos colaterais. Graças a essa raspa de tacho, os maltratados e desnutridos escravos conseguiam a energia necessária para trabalhar de sol a sol, muitas vezes com um pouco de lua incluída. Além das muitas vantagens, a rapadura custa pouco e rende muito.
Quando morava em Fortaleza e Recife, cidades com fartura de carne seca e rapadura, sempre encontrava farta variedade de ambas nas feiras. Os bons restaurantes de Recife serviam – e provavelmente ainda servem – água de coco gelada nas opções de bebidas e queijo derretido com melado na sobremesa. Delícias nossas. Nas minhas viagens pelo norte capixaba, sempre trazia na bagagem de volta alguns tijolos de rapadura.
E tem a história de um visitante de outro planeta que não conhecia a iguaria. Servi no jantar como sobremesa típica, e ele simplesmente adorou. Tal como as balas, rapadura se chupa, e o pedaço que ele pôs na boca nunca terminava. Por fim resolveu conferir, e o que havia restado do açúcar era uma mosca ou abelha mumificada. O sujeito ficou bravo e nunca mais nos visitou, como se tivesse eu preparado a especiaria. Mesmo sem ter muita certeza, jurei que era uma abelha. Menos mau.
Se existe cinema com rapadura – já que a pipoca tá muito cara – por que não literatura com rapadura? Tal e qual a rapadura, a literatura também é doce, dá grande prazer, mas é dura. Joanne Rowling, a maga do Harry Potter, recentemente mandou um trabalho para várias editoras usando um nome falso. Foi recusada por todas. A maga divulgou esse fato para consolar os autores que têm seus trabalhos rejeitados, mas acho que não consolou ninguém. Pelo contrário, comprovou como o ramo é duro de roer.
Quanto ao açúcar, seja em que forma for, a Organização Mundial da Saúde recomenda o consumo diário de apenas 25 gramas, ou 6 colherinhas de chá. O Brasil está no quarto lugar na lista dos países que mais consomem açúcar no mundo. A campeã é a Índia, seguida dos Estados Unidos, e no terceiro lugar a China. Infelizmente, com açúcar ou com afeto, ou mesmo sem eles, continuamos morrendo que ninguém é de ferro.

