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Lubrax 4 neles

O publicitário paulista Alex Periscinoto contou certa vez da dificuldade de sua agência em obter aprovação para uma campanha de propaganda da Petrobras, na época em que a estatal estava sob a presidência do general Ernesto Geisel, aquele que saiu direto da petroleira para o Palácio do Planalto, nos idos de 1973/74.
 
Segundo Alex, o contato publicitário foi ao Rio de Janeiro uma, duas, três vezes e voltava de mãos vazias, sem o indispensável OK da empresa. A campanha não decolava por falta de aprovação dos anúncios. E quem estava bloqueando? O próprio chefão.  
 
O gigante Alex, que tinha um aspecto polaco com seu narigão batatudo, resolveu radicalizar. Pediu à arte da Almap (a agência que dirigia) que providenciasse a foto de uma mulher nua, completamente besuntada de Lubrax 4. Dito e feito.
 
De perfil, em pose sensual, a modelo olhava desafiadoramente para o freguês ou cliente. No alto do cartaz, o título: O ÓLEO DA VERDADE. Embaixo, o nome do produto: LUBRAX 4. A idéia era simples e direta, dispensava argumentos.  
 
Com o material em mãos, o próprio publicitário foi para o Rio e encarou o general. Nem precisou argumentar. A campanha foi aprovada na hora. Para Periscinoto, sua intuição estava correta: o general era um tipo que não gostava de mistificações ou subterfúgios. Foi tiro e queda.  
 
Numa época de restrições aos direitos civis e violações dos direitos humanos, o futuro presidente da República (1974/1979) revelou-se sensível a uma mensagem singela, nua e crua, quase sem palavras. Para Alex, era o sinal de que Geisel seria, no fundo, um sujeito aberto; apesar da carranca, seria capaz de peitar um processo de abertura política, caso tivesse a chance de ocupar o Palácio do Planalto.  
 
Na realidade, a campanha do Lubrax 4 era apelativa, como é usual no marketing, no merchandising e nas práticas conexas. Qual a ligação entre uma moça nua besuntada de óleo e a eficiência de um lubrificante automotivo? Nenhuma, mas na cabeça dos publicitários sempre é possível armar um truque que “pegue” os clientes.
 
No caso, segundo a ousada interpretação da época, a foto da moça devidamente lubrificada pelo óleo da Petrobras sugeria não resistir ao assédio de quem estivesse em busca da verdade. Coincidência ou não, as paredes sujas, meio descascadas, que serviam como cenário sombrio para a foto, sugeriam um porão. Um porão da ditadura?
 
Não lembro quanto tempo a campanha ficou no ar, mas o pôster do Lubrax 4 ornou durante muito tempo as paredes das oficinas mecânicas, borracharias e postos de troca de óleo do Brasil inteiro, sem que ninguém soubesse que havia ali, naquela mensagem simples, um pacto diabólico entre dois gênios oportunistas, um da política, outro da publicidade, duas atividades hoje mais unidas do nunca no mundo da marketagem.
 
PERGUNTA DE PLANTÃO
Não está na hora de aplicar um Lubrax 4 na história da Pré-Sal, das empreiteiras de obras públicas e dos partidos políticos?   

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