O primeiro Fórum Social Mundial foi realizado em janeiro de 2001 em Porto Alegre e atraiu milhares de pessoas de todo o mundo. Pessoas dispostas a trabalhar “por um mundo melhor”, nos aspectos social e ambiental. Pessoas que se encontraram e, pelo menos para si, construíram um mundo melhor.
Por exemplo: Emilia, jovem socióloga francesa, acampou naquele verão em Porto Alegre e conheceu Miguel, engenheiro gaúcho e escritor global. Os dois se casaram e foram morar na Europa. Hoje estão na China, onde criam a filha pré-adolescente, legítimo fruto do FSM de 2001.
Há outras histórias semelhantes que seriam suficientes para lotar essa coluna. Não é o caso de individualizar, pois o FSM está voltando à sua origem portoalegrense, depois de circular por outras cidades do mundo (o 15º FSM será realizado em janeiro – veja o lembrete abaixo).
Na sua volta ao mundo, o FSM perdeu a força demonstrada no começo — ou porque muitas pessoas deixaram de acreditar num mundo melhor ou porque outras mais foram tragadas pela voragem do capitalismo, cujos princípios são renovados anualmente no hipermegapoderoso Fórum Econômico de Davos, nos Alpes Suíços, onde só chega quem possui mais de uma pele, a saber, pela ordem de dentro para fora: a pele corporal, as capas do vestuário, a casca grossa dos guarda-costas, a cobertura da polícia e a blindagem das limousines e dos helicópteros. Mais um pouco e estaremos descrevendo os protegidos do Sete Peles.
Voltas que o mundo dá para chegar ao mesmo lugar: esteve em Porto Alegre na primeira semana de dezembro o deputado federal socialdemocrata alemão Klaus Mintrup, biólogo que atua em Berlim, onde a vida da maioria melhorou desde a queda do Muro em 1989 e, principalmente, depois de 2001.
Em pleno coração do capitalismo, a capital de 3,5 milhões de habitantes conseguiu criar um mundo melhor para a maioria, fenômeno que se atribui à organização social e política. A maior parte da poupança alemã está sob controle de caixas populares, que financiam a democratização de todas as instâncias da vida da população – educação, saúde, transporte, arte, cultura, lazer. Mintrup é sócio de uma cooperativa habitacional que comprou 20 prédios antigos, restaurados para habitação, escritórios e pequenos negócios com subsídios do governo da cidade.
Ciceroneado na capital gaúcha pelo economista Raul Pont, prefeito petista na época do primeiro Fórum Social Mundial, o deputado alemão perguntou quanto subsídio a prefeitura de Porto Alegre dá ao transporte público. “NIX!” foi a resposta. “Nada”.
Ao contrário de Berlim, Porto Alegre perdeu terreno(s). “Desde 2010 foram aprovados oito projetos de shoppings centers em Porto Alegre”, disse Rodrigo Oliveira, presidente do PT local, que perdeu espaço na Câmara de Vereadores, onde tem apenas 5 dos 35 mandatos, depois de governar por 16 anos a cidade-mãe do Orçamento Participativo, mantido em banho-maria graças ao espírito de lutas de líderes comunitários.
Ainda que Porto Alegre não seja páreo para Berlim, ou talvez por isso mesmo, a retomada do Fórum Social Mundial é um tema mobilizador de pessoas ainda sintonizadas na ideia de que “um mundo melhor é possível”. Na noite de segunda-feira (7/12), cerca de 200 pessoas se reuniram para ouvir três personalidades: além do deputado alemão Klaus Mintrup, o polonês naturalizado brasileiro Ladislau Dowbor, um dos principais economistas (de esquerda) em atividade no Brasil; e o economista Marcio Pochmann, ex-presidente do IPEA e atual comandante da Fundação Perseu Abramo, do PT. Dos três, o único otimista foi o alemão.
Ladislau Dowbor, coordenador dos cursos de pós-graduação da PUC-SP, “baixou” para o auditório uma série de dados sobre a destruição do planeta. “Desde 1970 liquidamos com a existência de 52% dos vertebrados”, disse, dando a impressão de que gastaria seus 20 minutos com a apresentação de um quadro de horrores. Mas não, ele mostrou que o Brasil deu uma boa melhorada em seus indicadores sociais. Por exemplo, de 1991 para 2010, o índice de mortalidade infantil caiu de 30/1000 para 15/1000; a expectativa de vida subiu de 65 anos para 75 anos; e a maioria absoluta dos municípios se livrou do conceito de “baixo” no Indice de Desenvolvimento Humano. Em compensação, “é mais fácil tirar o essencial dos pobres do que o supérfluo dos ricos”, disse ele, citando um político francês.
De fato, os dados mostram que o Brasil se tornou prisioneiro do sistema financeiro. “Este ano, o governo vai pagar R$ 400 bilhões para o custeio da dívida pública”, disse Dowbor, salientando que, nesse estado de coisas, não sobra dinheiro para custear obras. Hoje no Brasil tanto os investimentos públicos quanto os investimentos privados estão travados pelo nó do endividamento do Tesouro. E nenhum político brasileiro ousa questionar a hegemonia do rentismo, que gerou uma situação inversa á da Alemanha. Lá, 60% dos recursos financeiros disponíveis são administrados por caixas populares de poupança que visam o bem estar social; aqui, onde o Produto Interno Bruto soma R$ 5,5 trilhões, um total de R$ 3,1 trilhões está girando em crediários, títulos e aplicações financeiras cujo foco é sustentar os bancos e os rentistas. “O problema do Brasil não é falta de recursos, mas falta de organização política”, resumiu Dowbor, que sugeriu ao público captar no Google o estudo “Resgatando o Potencial Financeiro”, de sua autoria.
Marcio Pochmann começou sua fala condenando o curtoprazismo, “que não abre espaço para as utopias”. Segundo ele, a globalização do capitalismo não apenas colocou a economia em absoluto primeiro lugar, mas tornou a política irrelevante. Dessa situação advêm o descrédito dos partidos e a desimportância dos sindicatos, fenômenos que alimentam um surto de conservadorismo em tudo favorável às corporações que dominam o comércio mundial e controlam a criação de tecnologia. Segundo Pochmann, 147 grupos econômicos controlam 60% do PIB mundial e apenas seis países têm orçamentos maiores do que as receitas das quatro maiores corporações globais, que interferem a seu feitio sobre os poderes locais, regionais e nacionais.
No Brasil, um dos sintomas da distorção do processo político está na eleição de 272 deputados ‘ruralistas’ por uma população 86% urbana. Na esteira dessa dessintonia vão se criando inovações transitórias que correspondem menos ao interesse público e mais aos interesses privados. “Alguns estados estão terceirizando o ensino”, lembrou Pochmann, que está preocupado também com o crescimento da população de idosos. Atualmente, o Brasil possui 3,2 milhões de pessoas com mais de 80 anos; dentro de 20 anos, eles serão 20 milhões. Outro dado preocupante é que um terço dos aposentados brasileiros continua trabalhando, o que significa que lá adiante vão faltar recursos já que, dos 23% do PIB que o Estado brasileiro dedica aos gastos sociais, 11,5% vão para aposentadorias e pensões.
Em outras palavras, a mensagem subjacente à retomada do Fórum Social Mundial é que o mundo corre o risco de piorar se as pessoas não se organizarem melhor. SOS, Berlim!
LEMBRETE DE OCASIÃO
As inscrições para o FSM 2016 Porto Alegre 15 Anos (de 19 a 23 de janeiro de 2016) estão disponíveis no site www.fsm.org.br
Outras informações em [email protected] ou pelo telefone (51) 3289.3845

