Um telegrama, do qual a nova elite nunca ouviu falar, era o modo de se enviar notícias urgentes, importantes ou nem tanto, boas ou más, ou nem uma coisa nem outra. Telefones eram raros, e-mails e torpedos não eram usados nem nos mais delirantes filmes de ficção científica, e as cartas cavalgavam em lombo de tartarugas. Nesse cenário de Idade Média, o telegrama chegava a tempo e a hora, e pagando taxa extra, até no mesmo dia. Pagos por palavra e vírgulas, erros de interpretação por falta de verbas eram constantes. Ou pela prática do nefando pão-durismo.
Telegramas eram também a forma de comunicação mais usada nas guerras e tratos diplomáticos. Um tipo diferente, claro, que não usava palavras, não por restrições orçamentárias. A norma era usar códigos secretos. Emprego bem pago na época era decifrador de códigos de outros países, fossem inimigos ou amigos, pois entre nações e governantes nunca se tem garantias. Imagine-se as crises internacionais provocadas pela decifração ou pelos erros de interpretação dos códigos alheios.
Em 1917, o Telegrama Zimmerman, enviado em código pelo ministro do Exterior da Alemanha, Arthur Zimmermann, a seu diplomata no México, mudou os rumos de uma guerra e talvez a história do mundo. A Primeira Grande Guerra varria a Europa, e um cobiçado parceiro, os Estados Unidos, era disputado por ingleses e alemães. Interceptado pelos radares ingleses, o telegrama foi decifrado e o texto amplamente divulgado. A revolta da opinião pública americana forçou o governo a se decidir, e o resto é História.
No telegrama Zimmermann autorizava o embaixador a fazer um pacto militar com o governo mexicano – caso os americanos entrassem na guerra com os ingleses, o México deveria invadir os Estados Unidos e intermediar uma aliança entre Alemanha e Japão. Moeda de troca? A Alemanha financiaria generosamente a guerra, e o México receberia de volta os territórios que havia perdido para os ianques – Texas, Novo México e Arizona. Como a história e a geografia nos ensinam, o México agradeceu penhoradamente, mas recusou a proposta.
Um general mexicano foi designado para estudar a possibilidade do México vencer a guerra e retomar seus territórios há muito perdidos. A resposta foi categórica – Impossível! Primeiro, os Estados Unidos eram muito mais fortes que o México em tudo, principalmente na arte da guerra; segundo, o generoso suporte financeiro prometido pelos alemães era bom demais para ser verdade. De qualquer forma, o México não poderia usá-lo para comprar armas, simplesmente porque o único fabricante nas Américas, os Estados Unidos, não iriam vender para eles.
Terceiro, a Alemanha não poderia mandar armas para o México porque os navios ingleses controlavam todo o Atlântico. O quarto empecilho – quem diria – era o Brasil. O México havia colaborado com as Nações ABC – Argentina, Brasil, Chile – para evitar uma guerra com os Estados Unidos. Declarando guerra a seu gigantesco vizinho, o México abalaria suas relações também com esses países, principalmente o Brasil, que já estava tendo problemas com os alemães bombardeando seus navios.
Na guerra, tal como na paz, tudo é possível, e a credibilidade do telegrama foi muito discutida. Os Estados Unidos não andavam em bons termos com a Inglaterra na época, e havia a possibilidade de se aliarem aos alemães. O telegrama poderia ter sido forjado para forçar a indecisa nação americana. No entanto, o próprio Zimmermann confirmou a autenticidade do mesmo. Para entender melhor esses quiproquós diplomáticos, só lendo Maquiavel.