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Marcha da desfaçatez

Um submarino em operação guerra costuma passar o maior tempo possível submerso – uma tática de sobrevivência. Essa também tem sido a estratégia do governador Paulo Hartung para navegar em águas turvas sem correr muitos riscos. Nessa segunda-feira (14), porém, ele achou que já era hora de “emergir”, e decidiu se posicionar sobre o processo de afastamento da presidente Dilma. Escolheu o evento ES Competitivo, da TV Gazeta, para mandar seus recados. Cravou, por exemplo, que “impeachment não é golpe”.
 
Hartung tentou justificar seu novo posicionamento. Sustentou que o impeachment está previsto no rito constitucional. Em outras palavras, ele quis dizer que se há denúncias, devem ser apuradas no rigor da lei.
 
Curioso é que esse posicionamento legalista serve para a presidente Dilma, mas não para ele. Durante a disputa eleitoral de 2014, o PSOL formalizou denúncias na Justiça envolvendo o então candidato Paulo Hartung
 
Entre outras irregularidades, o PSOL acusou Hartung de ter omitido patrimônio em sua declaração de bens à Justiça Eleitoral, além da existência de indícios da suposta prática de “caixa dois” por meio da empresa de consultoria Éconos, sociedade entre o peemedebista e o seu ex-secretário da Fazenda, José Teófilo de Oliveira.
 
As denúncias contra Hartung foram arquivadas. O relator do processo, desembargador Sérgio Luiz Teixeira Gama, chegou a admitir que seria “recomendável” ao peemedebista ter declarado a íntegra de seus bens, mas acabou classificando o caso como “mera irregularidade formal”, que não teria o potencial de influenciar na disputa eleitoral ou provocar a cassação do mandato do peemedebista. Mesmo entendimento do Ministério Público Eleitoral (MPE).
 
Em relação às demais acusações, Sérgio Gama alegou que não existiriam provas dos supostos ilícitos – apesar do mesmo ter rejeitado o pedido de produção de provas feita pelo PSOL, que pediu a quebra do sigilo fiscal da ÉconosESSE TRECHO DO TEXTO FOI EXCLUÍDO POR DECISÃO JUDICIAL
 
Graças ao controle pleno do arranjo institucional, Hartung conseguiu “engavetar” as denúncias. Independente da “absolvição” caseira, antes de se colocar como paladino da legalidade, no caso do impeachment da presidente, Hartung deveria esclarecer, antes de mais nada, as denúncias que pesam sobre ele. 
 
Ainda no evento da TV Gazeta, o governador sublinhou que a crise política é resultado do processo eleitoral. “Ali se explicitou um país dividido. No segundo turno, o governo ganhou com o país dividido. Saímos dali com a corda esticada, quem ganhou [Dilma] não teve consciência de que ganhou numa situação do um país muito dividido, e quem perdeu [Aécio Neves, do PSDB] não desceu do palanque por motivos próprios. A corda ficou esticada e o processo de impeachment estica ainda mais a corda, na minha visão”.
 
As afirmações de Hartung chegam a ser irônicas de tão despropositadas. Mais uma vez, distorcendo a realidade, ele ignora sua própria situação. O peemedebista também saiu de uma eleição dividida. Aqui a corda ainda se mantém tensionada. E isso ocorre, em grande parte, em função de sua insistência em criticar a gestão do antecessor, Renato Casagrande (PSB), em vez de governar.
 
Essa dicotomia apareceu, mais uma vez, no final de seu discurso. Hartung afirmou que antecessor deu “pedaladas”, deixando contas para trás, que ele foi obrigado a assumir.  “O Espírito Santo vinha numa desorganização de suas contas de grandes proporções, onde as despesas vinham subindo pelo elevador enquanto as receitas pela escada, gerando um desequilíbrio”. 
 
Essa passagem, em especial, confirma que Hartung, após quase um ano à frente do governo, resiste em descer do palanque e governar. É por essas e outras que suas declarações, tanto em relação ao processo de impeachment como às críticas à gestão de Casagrande devem ser interpretadas como oportunistas. 
 
Há alguns meses, quando a oposição aumentou a pressão sobre Dilma com a intenção de deflagrar o processo de impeachment, Hartung quis sair na frente dos colegas governadores para defender um pacto em nome do Brasil. Classificou o movimento para destituir o mandato de Dilma como a “marcha da insensatez”. Ficou claro que tudo não passou de oportunismo. Agora podemos dizer que ele protagoniza outro movimento: a “marcha da desfaçatez”. 

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