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Meias verdades

Na edição do jornal O Globo desta segunda-feira (2), o governador Renato Casagrande faz um balanço das ações de seu governo na área de segurança pública. No artigo, o governador tenta aplicar uma caprichada demão de verniz nas ações de combate à violência, que ainda são incipientes ou pouca efetivas para devolver à população a sensação de segurança. 
 
Com o título “Uma questão de prioridade política”, Casagrande não exagera quando afirma, logo no início do texto, que a segurança pública foi esquecida durante anos. Se quisesse ser menos condescendente com seu antecessor, poderia ter dito que o ex-governador Paulo Hartung foi um dos principais responsáveis pela estagnação dos investimentos na área, omissão que contribuiu para os altos índices de homicídios do Estado.
 
Também é verdadeira a afirmação de Casagrande quando diz que está repondo os efetivos da PM até 2014, investimento que também foi abandonado pelo governo anterior nos seus dois mandatos (2003 – 2010). Como revelou o coronel da reserva Sérgio Aurich, em entrevista a Século Diário em março deste ano, a PM, em 1993, tinha um efetivo de 8,2 mil homens. Vinte anos depois esse efetivo, em vez de aumentar, caiu. 
 
Mesmo correndo atrás do prejuízo, o reforço no efetivo, diferentemente do que afirmou Casagrande, ainda não será suficiente para cobrir o buraco deixado pelo antecessor. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda um policial para cada 250 habitantes. Para ficar dentro do parâmetro da OMS, a PM capixaba teria que ter hoje um efetivo de 14 mil policiais. Completo mesmo, como promete Casagrande, só se o eleitor conferir ao governador a chance de um segundo mandato. 
 
O artigo começa a patinar de vez quando o governador entra nas estatísticas da violência. Casagrande afirma que de 2009 para cá os índices de homicídios caíram 20%. Reconhece que ainda não há nada comemorar, pois os índices são considerados elevados – o segundo pior do país -, “mas estamos no caminho certo”, enfatiza. 
 
A tese do governador e do secretário de Segurança André Garcia se escora numa curva elevadíssima de 2009 – ano mais violento das últimas três décadas- para evidenciar o recuou.
 
Se levarmos em conta a taxa média de homicídios da última década, perceberemos que a redução ficaria longe de 20%. Até há uma redução – a desaceleração aconteceu em quase todos os estados da federação -, mas não tão acentuada como destaca Casagrande. 
 
Embora as estatísticas sejam fundamentais para se avaliar a efetividade das ações das políticas públicas no combate à violência, o atual secretário André Garcia tem “escondido” informação da imprensa e, por conseguinte, da população. 
 
Se na gestão do ex-secretário de Segurança Henrique Herkenhoff havia transparência nos dados de homicídios, na de Garcia a estratégia foi “sumir” com a informação. 
 
Mesmo com o boicote dos números diários de homicídios que eram divulgados diariamente no site da Sesp, a percepção da população é algo que não passa pelas estatísticas. 
 
Não basta o governo dar conotação positiva à redução dos índices de homicídios, a sensação de segurança é subjetiva e mais convincente que qualquer dado numérico, ainda mais esses recheados de meias verdades. 

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