Uma interrogação martelou no fim de semana: o que será do artista Jorge Solé depois da morte da companheira Silvana?
Sem ignorar o estudo norte-americano segundo o qual não há maior estresse emocional para o ser humano do que a morte do cônjuge, escapei da pergunta convencido de que o artista seguirá pintando com mais fúria do que antes.
Sim, fúria, raiva, vigor. Não consigo imaginar Solé abatido ou macambúzio. Recordo-o como um cara “invocado”, palavra que se usa no Rio Grande do Sul (terra natal dele) para definir pessoas despachadas, que não levam desaforo para casa.
Conheci-o em 1991 quando cheguei ao Espírito Santo, onde eu só conhecia dois jornalistas, Nilo Martins e Jairo Regis, ex-colegas em revistas da Editora Abril em São Paulo.
Aterrisei em Manguinhos com o filho de três meses e Claudia Rodrigues, a mãe dele, e alugamos a casa da rua Irema, nº 5. Pertencia a D. Dilá de Almeida, filha do famoso engenheiro Ceciliano Abel de Almeida, construtor da estrada de ferro Vitória-Minas, no início do século XX.
Montado num cavalo chamado FGTS, paguei adiantado o aluguel para não correr o risco de ter de sair antes de um prazo razoável. Pela primeira vez na vida estendi uma rede na varanda e fiquei a contemplar aquele cenário de um abril ensolarado. A duas quadras dali, o Atlântico soberano.
A gente não tinha pressa de descobrir a verdade sobre o Espírito Santinho, que foi se apresentando devagarinho, nessa mescla baianocariocamineira.
Com um pé de framboeseira na porta, a casa branca de janelas azuis ficava escondida à sombra de castanheiras numa esquina defronte à pracinha onde cavalos pastavam ao som das crianças da primeira creche da vila.
Só havia um vizinho de muro. Era um barbudo chamado Jorge Solé, artista plástico que vivia ali com a mulher Silvana, ambos rodeados por três filhos, Neto, Brígida e Silvio. Familia normal com duas cachorras, uma chamada Perestroika, a outra Capitalista, nomenklatura a refletir os acontecimentos da época: o muro de Berlim tinha sido derrubado, a URSS estava se desmanchando.
Na informalidade do balneário, a primeira coisa que recebi do vizinho foi MEUS ESTIMADOS VIVOS, livro de Carlos Nejar ilustrado por ele (Solé) em papel reciclado, numa edição pioneira da prefeitura da Vitória. Depois ele me presenteou com outros trabalhos artísticos. Alguns foram emoldurados e amarelaram nas paredes de nossa vida itinerante.
Embora também tenha migrado do RS para o ES, Solé se enraizou em Manguinhos. Trabalhou um tempo na prefeitura de Vitória na gestão do petista Vitor Buaiz mas não teve paciência para encarar o jogo político imposto pela burocracia partidária. Em vez de ficar brigando no gabinete, caiu fora e foi pintar o sete com seu traço vigoroso de gaúcho bagual.
Como não era possível viver só de arte, vendeu seguros para sustentar seus projetos. Fugindo do aluguel construiu em Manguinhos, na rua Borboleta Amarela, um casarão de linhas coloniais com batentes feitos de dormentes ferroviários.
Ao seu lado, sempre serena e sorridente, a musa de riso escancarado que se foi silenciosamente no último dia 20 de fevereiro. Foi Silvana quem nos ensinou o quanto era simples preparar uma moqueca capixaba – sem dendê nem leite de coco, mas com o indispensável coentro jogado por cima do cozido borbulhante.
Um quarto de século depois, a mil e tantos quilômetros de Vitória, podemos mostrar aos novos vizinhos uma das relíquias que carregamos do Espírito Santo: o álbum de gravuras de Vitória editado em 1995 pelo nosso ex-vizinho de Manguinhos. Presente de Brigida Solé e seu filho Gabriel ao amiguinho Tao Hasse, criado em Manguinhos.
Obra de Jorge Solé, o álbum contém belas pranchas de papel mostrando cenas da capital dos capixabas: portas antigas, barcos, o Penedo, o Congo, as Paneleiras, a Procissão dos Homens…fragmentos da do corpo e da alma da capital dos capixabas.
Viva Solé feliz com sua prole e suas obras na terra que adotou como sua.
LEMBRETE DE OCASIÃO
“Levo esta vida/ou esta morte/sem cobrar frete/ ou transporte./ Levo-as/ misturadas/ na mesma carga./Distingui-las/ é tarefa/do poeta/ou, quem sabe,/ fortaleza./Levo esta vida/ou esta morte/ de aparências,/de tal sorte/que tudo se faz suporte/de sua presença.”
CARREGAMENTO, poema de Carlos Nejar

