Sempre que se coloca em questão a crise das águas, penso em Manguinhos, o vilarejo de pescadores situado a 20 quilômetros de Vitória e que se transmutou em balneário da classe média, mas respeitando o ambiente, com ruas de terra, passeios de grama arborizados, habitações horizontais, pátios amplos, batidos pela sombra generosa do arvoredo…
Em duas ou três centenas de domicílios construídos na estreita faixa litorânea de um quilômetro entre dois riachuelos – Bicanga e Guaxindiba ou Manguinhos –, acomoda-se uma população permanente de 1 mil habitantes e outra flutuante de 2 mil a 10 mil no verão (me corrijam se eu estiver enganado).
Agora que o Espírito Santo foi equiparado a São Paulo quanto à crise hídrica, me pergunto se em Manguinhos falta água ou se algum dia houve enchente nesse paraíso isento de prefeito mas rico em consciência ambiental e cívica.
Alguém há de argumentar que não se pode comparar um vilarejo bucólico à beira-mar com cidades inchadas pela infiltração de migrantes chegados de todos os quadrantes com carências do tempo da escravatura. Mas Manguinhos não é única, há exemplos similares no litoral, nos planaltos e nos sertões do Brasil – sinal de que nem toda urbanização precisa ser feita pelos moldes horrorosos de nossas metrópoles.
Cabe aí uma reflexão reparadora diante de uma boa chuva de verão que São Pedro há de mandar sem danos aos viventes em geral.
Nem toda água que se precipita na superfície se infiltra no solo, explica o professor Ciro Correia, da Geologia da USP. Uma parte escorre para os rios, outra parte evapora. Aliás, a água que garante a perenidade dos rios não é a que vem diretamente da chuva, mas sim a dos aquíferos que os alimentam (aos rios) mesmo fora dos momentos de precipitação.
Se dependessem apenas de chuvas (incertas, inconstantes) para se manter, os rios não seriam perenes, como acontece na maior parte do mundo, exceto no Nordeste e outras regiões áridas do planeta, onde há muitos rios intermitentes, secos a maior parte do ano.
Mesmo nos lugares onde se acumula neve, a chuva é o mecanismo central de reposição ao solo das águas que circulam aleatoriamente em forma de nuvens e se precipitam de acordo com certas condições de pressão e temperatura – condições cada vez mais estudadas e compreendidas pelos cientistas. Mas o clima é caprichoso como mulher e violento como o homem.
Noves fora os rios, os lagos e outras formas de acumulação de água como as represas artificiais, a chuva sempre foi o denominador comum de todo o ciclo hidrológico ao longo das estações do ano. Trata-se de um fator visível que, entretanto, se articula com o invisível situado abaixo da superfície, onde há reservatórios subterrâneos (formados pelas águas da chuva) que alimentam o fluxo do lençol freático. Eis o problema do momento: a água que aflora às fontes superficiais alimentadoras de rios e lagos vem num volume e numa velocidade muito menores do que as da água que escorre nos momentos de chuva.
Assim, mesmo que pontualmente chova muito nas cabeceiras de um rio que alimenta um reservatório d´água num momento de estiagem prolongada (como acontece atualmente em São Paulo), essa água pouca diferença faz no volume acumulado para abastecimento urbano, pois boa parte dela vai ser absorvida mais lentamente pelo subsolo muito menos saturado (mais seco) que em períodos de chuvas regulares e, também, vai evaporar em taxas muito maiores que nos períodos de chuvas regulares.
É uma sinuca hidrológica não prevista pelos administradores públicos, que estão na obrigação de estender a mão aos técnicos. É o que se espera, pelo menos, em nome do interesse das populações aflitas e inseguras.
Na realidade, como lembra o professor Correia, o fluxo da água no interior dos aquíferos subterrâneos varia muito, podendo levar 10 mil anos para cobrir uma distância de 20 quilômetros – por exemplo, de Domingos Martins a Vitória. Não é chute, mas uma referência tirada de um estudo realizado na década de 1970 no entorno de Ribeirão Preto, município que fica numa área de transição da Mata Atlântica para o Cerrado, no nordeste paulista, a 700 metros do nível do mar.
Por aí se vê quão pouco se sabe sobre o vaivém da água nos bastidores de nossas cidades, lavouras, florestas, represas, estradas e rios. Frequentemente, muita coisa dominada pelos cientistas é ignorada pelos políticos, que vivem para atender conveniências de ocasião.
Dias atrás, a ministra Isabela Teixeira do Meio Ambiente equiparou as crises hídricas de São Paulo e do Espírito Santo. Não questiono seu saber, mas a comparação SP x ES é tão descabida quanto confrontar Brasil e Cuba ou Argentina x Uruguai. Entre outros aspectos, são enormes as diferenças de área, geografia, economia e de população. De dez para um, em média.
Embora a população do ES represente menos de 10% da população paulista, a densidade populacional da região metropolitana capixaba (1,5 milhão de habitantes) pode ser semelhante à de São Paulo (20 milhões de habitantes), mas como comparar, por exemplo, a infraestrutura de abastecimento e saneamento ambiental desses dois aglomerados urbanos?
Impossível também colocar no mesmo nível a capacidade de investimento das respectivas estatais do setor. No confronto de indicadores como receita, número de consumidores e outros itens, o resultado final pode ser Sabesp 7 x 1 Casan, sem considerar a qualidade dos serviços, claro.
Além disso, as áreas urbanas de São Paulo e Vitória são incomparáveis na população, na dimensão e na localização. Vitória é beira-mar, São Paulo planaltina. Se a mancha urbana de Vix pode ter uma média de 6 quilômetros de diâmetro, a de Sampa alcança 60 km. Não é à toa que uma chuva mais forte provoca inundações na metrópole paulistana: a maior parte da superfície urbana está impermeabilizada por construções, telhados, pátios calçados e pavimentos de asfalto.
Como equiparar as duas crises hídricas? Só se for para satisfazer a pressa de um reportariado esbaforido. No mínimo, falta uma leitura esclarecida sobre o movimento das águas nas superfícies e nos subsolos, como sugeriu, linhas acima, o geólogo da USP.
É na ignorância ambiental que mora o perigo. Muitas de nossas cidades estão se deteriorando antes de se tornarem satisfatoriamente habitáveis. Por que? Porque foram construídas em desarmonia com a Natureza.
ADVERTÊNCIA DE OCASIÃO
“Se V. pensa que a situação climática vai se normalizar, pode tirar seu cavalinho da chuva”

