O desabafo de uma usuária do Sistema Transcol – “Parece até que a gente é gado” – resume de forma perfeita a situação em que se encontra o transporte coletivo de passageiros na região metropolitana, gerido pela Companhia de Transportes Urbanos da Grande Vitória (Ceturb-GV). A demora em passar nos pontos e a superlotação nos ônibus, velhos e insolúveis problemas, se agravam a cada dia.
Único modelo de transporte de massa na região, o sistema apresenta várias deficiências, com destaque para a forte influência das empresas no direcionamento do setor, inclusive na elaboração de planilhas de custos, que já motivou denúncia à Comissão de Defesa do Consumidor e do Contribuinte da Assembleia Legislativa em 2016. Como sempre, não deu em nada.
Esse direcionamento resultou na manutenção do sistema, sem a necessária reestruturação, e o cancelamento de todo e qualquer projeto que representasse uma mudança no modelo de mobilidade urbana da região da Grande Vitória.
O governo Paulo Hartung suspendeu as licitações de implantação do Sistema BRT (vias exclusivas para ônibus na Grande Vitória), do Sistema Aquaviário e de estudo para construção de ciclovia na Terceira Ponte. Além disso, há quase dois meses os usuários sofrem com a redução de frota operada pelas empresas concessionárias.
O sistema Transcol, criado na década de 80 para acabar com o monopólio de um fechado grupo de empresas, passou por distorções de seus objetivos por conta do aumento do nível de controle das concessionárias, alinhadas com a gestão pública de tal forma que conseguem impedir não somente a reestruturação operacional, mas fecha as portas a soluções bem sucedidas em outros centros urbanos.
Enquanto os usuários são obrigados a utilizar um serviço que coloca bem abaixo o conceito de cidadania, em desrespeito ao ser humano, os gestores do sistema permanecem debaixo de uma estrutura viciada, em decorrência de influências empresariais e políticas que cortam qualquer tipo de avanço. As tentativas são muitas, frutos de protestos populares, que esbarram no desinteresse e descaso da área política.
Manter esse modal da forma como está, sem a perspectiva de abrir para outros meios de transporte que valorize o cidadão, é obrigação do poder público em aliança com interesses de poucos. Aceitar a redução da frota, como denuncia a o sindicato dos trabalhadores no setor, significa descompasso com o avanço social e os conceitos de cidadania.
Um novo governo está prestes a ser iniciado. Espera-se que o gargalo à mobilidade urbana representado pelo Sistema Transcol venha a ser motivo de projetos estruturantes, com participação popular, a fim de que o usuário do transporte coletivo tenha voz e influencie na tomada de decisões, hoje direcionada pelas empresas e a classe política.
Afinal de contas, é preciso que os desabafos dos 16 milhões de usuários mensais do Transcol, que sofrem no dia a dia com a superlotação nos ônibus e atrasos nos horários, sejam ouvidos e levados em consideração. Eles falam mais alto do que avaliações internas cujos resultados são, sempre, otimistas e, também, inverídicos. O sistema é péssimo.

