Para muitos observadores, a Segurança Pública deve ser um dos temas centrais nos debates eleitorais deste ano no Espírito Santo. Não é pra menos. Há mais de uma década o Estado se mantém na vice-liderança nacional no ranking de homicídios — 47,3 assassinatos por 100 mil habitantes, no ano de 2012, de acordo com dados preliminares do Mapa da Violência 2014.
Antes da quebra da unanimidade, o governador Renato Casagrande (PSB), fiel ao antecessor Paulo Hartung (PMDB), defendia a tese de que os homicídios começaram a registrar queda a partir de 2009. Dentro do discurso da continuidade, essa foi a solução encontrada para tentar blindar a gestão pífia do governo Hartung à frente da Segurança, que muito pouco ou praticamente nada fez para coibir as taxas de homicídios. Para quem gosta de colecionar dados, mais de 14 mil pessoas foram assassinatos no Estado nos dois mandatos de Hartung (2003 – 2010).
Esse discurso protecionista de Casagrande seguiu assim durante os três primeiros anos de governo. Entretanto, com o início das movimentações políticas, a partir do momento em que o ex-governador se colocou à disposição do PMDB para disputar o governo, o discurso de Casagrande começou a mudar.
Dias atrás, Casagrande já havia dito que nenhum governo investiu tanto em segurança quanto o dele. Fez também críticas veladas ao governo Hartung, dando a entender que a área de segurança fora praticamente abandonada pelo antecessor. O que é a mais pura verdade.
A mudança de discurso ficou mais evidente com três notícias positivas que reconhecem os esforços do governo no combate à criminalidade. Fica clara a intenção do atual governo de separar o joio do trigo para confrontar as ações do seu governo com às do antecessor.
Durante a abertura do 1º Diálogo Regional sobre Segurança Cidadã: Os Desafios da Sociedade Contemporânea, no Palácio Anchieta, nessa segunda-feira (27), Casagrande anunciou que o programa Estado Presente recebeu a maior nota de avaliação que o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) já fez entre os projetos voltados a políticas de segurança pública, nos últimos dez anos. A nota 9,5 foi a mais alta já registrada entre os programas avaliados pelo BID, orgulhou-se Casagrande.
Anunciou também, em função dos bons resultados, um investimento de 70 milhões de dólares no programa — 56 milhões do BID e outros 14 milhões como contrapartida do governo.
O outro ponto positivo veio do diretor do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), Daniel Cerqueira, que também participou do evento. Ele estimou que o Espírito Santo pode deixar a lista dos “top cinco” da violência em três anos. Basta, para isso, continuar fazendo o dever de casa com zelo.
A outra notícia positiva veio do Mapa da Violência 2014. O estudo mais importante sobre os índices de homicídios no País revelou que a taxa de assassinatos no Estado, entre 2011 e 2012, caiu 0,2%.
O responsável pelo estudo, o professor Júlio Jacobo Waiselfisz, advertiu, é importante que se registre, que a queda ainda não pode ser considerada como uma tendência.
Ponderação à parte, o governo (ou parte dele) festeja as boas notícias. O secretário de Ações Estratégica, Álvaro Duboc, reproduzindo o discurso do governador, creditou ao Estado Presente os méritos das conquistas. Ele ressaltou que um dos focos do programa, implantando no governo Casagrande, é desarmar a população. Duboc disse que o programa já recolheu 13 mil armas de fogo de 2011 para cá.
Se Duboc está afinado ao discurso do chefe, o secretário André Garcia insiste em seguir destoando do discurso governista. Remanescente do governo Hartung e “afilhado político” do ex-secretário de Segurança Rodney Miranda (DEM), hoje prefeito de Vila Velha, Garcia fez questão de creditar os resultados ao governo passado.
Ignorando que hoje Casagrande e Hartung são adversários, pelo menos por enquanto, Garcia puxou os louros para o trabalho iniciado em 2009, penúltimo ano do governo Hartung.
O secretário insiste na “tese fabricada” de que a queda nas taxas de homicídios começou naquele ano. Não revela, porém, que 2009 foi o ano em que o Estado registrou a maior taxa de homicídio da década passada: mais de 63 homicídios por 100 mil. Obviamente, ao considerar a maior curva da década como parâmetro, tudo que viesse em seguida, consequentemente, representaria queda.
A manobra de tentar reivindicar a conquista de Casagrande para o ex-governador confirma que Garcia continua fiel a Hartung. De outro lado, o risco de manter no governo um “hartunguete de carteirinha” é de inteira responsabilidade de Casagrande.

