Teimosa, a muié não renuncia “em hipótese nenhuma”. Faz bem. Não é hora de jogar a toalha no ringue. Se for para deixar a presidência, que seja mediante processo constitucional. Qualquer desvio compromete o futuro da democracia.
Em alguns momentos chega a parecer que, em meio ao tiroteio, La Rousseff está até se divertindo com tamanha polarização – muitas pessoas extravasando ódio, fascistas arreganhando os dentes, jornais e revistas propagando boatos como parte de uma campanha de desmoralização do Poder Público.
Agitado pela mídia convencional e as redes sociais, que deram nova configuração ao panorama cultural brasileiro, o jogo político-eleitoral adquiriu uma complexidade inédita, tornando impossível fazer previsões sobre o desfecho da crise que transborda do confronto Executivo-Legislativo para o âmbito do Judiciário.
Nesse contexto explosivo, a única coisa clara é que as Forças Armadas estão quietas no seu cantinho constitucional. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, quando operaram como forças auxiliares dos EUA na Europa, as FA’s brasileiras somente se movimentam a partir de considerações geopolíticas internacionais, como aconteceu em março de 1964 – havia então o fantasma do comunismo.
Passado o “perigo vermelho”, resta aos civis resolver suas diferenças sem recorrer às armas, tarefa difícil diante da confusão reinante. A esta altura do espetáculo, é oportuno perguntar a quantos monta hoje o contingente de picaretas estabelecido no Congresso.
Segundo a estimativa feita por Lula depois de passar pelo Congresso como constituinte, seriam 300. Com a inflação e a corrupção, parece que o contingente aumentou. Deste total, mais de 20% são filiados ao PMDB, que já foi definido como “um saco de gatos”, “uma colcha de retalhos”, “uma federação de caciques”. Hoje poderia ser chamado de Partido do Movimento Dependente das Boquinhas.
Nós brasileiros nos acostumamos com o oportunismo, o fisiologismo e a hipocrisia dos representantes políticos. A maioria dos componentes do Congresso chegou a Brasília por conta de financiamentos empresariais ou de interesses corporativos. No toma lá-dá cá, parece que o governo sairá derrotado, mas nunca se sabe o que vai na alma – e no bolso – dos políticos, que se comportam como seres autômatos, à revelia dos diretórios partidários e dos desejos dos eleitores. Vem daí a sensação de logro dos cidadãos.
Logro, desconforto, revolta, desânimo – sentimentos que se concentram automaticamente na figura emblemática colocada no Palácio do Planalto. É o bode expiatório. O Judas. Tenha ou não cometido erros, haverá de pagar pelos pecados dos homens públicos em geral.
Como um dos 54 milhões eleitores da atual presidente, torço para que ela conclua seu mandato de quatro anos, cumprindo a promessa de fazer mais investimentos em educação, saúde, infraestrutura e numa política fiscal que ponha a maior parte da carga tributária sobre os ombros de quem pode pagar. A desigualdade sócio-econômica vigente no Brasil é a maior vergonha nacional desde a abolição da escravidão.
Caleidoscópica, a situação permite dizer até que o impeachment não passará porque toda essa jogada para tirar a presidenta do palácio despertou o centro democrático (uma novidade nesses tempos no Brasil), que saiu às ruas, aliado à esquerda, para defender o risco real de ruptura da legalidade.
Estamos precisando de uma lição de paciência e sobriedade. Quem se habilita?
LEMBRETE DE OCASIÃO
“Se os fracos não têm a força das armas, que se armem com a força do seu direito”.
Ruy Barbosa