Na entrevista que deu ao jornal A Gazeta, publicada na edição desta quarta-feira (21), o governador Renato Casagrande (PSB), entre outros assuntos, tratou da polêmica envolvendo a cobrança do pedágio na Terceira Ponte.
A exploração da ponte pela concessionária Rodosol foi alvo das manifestações que tomaram as ruas da Capital capixaba nos meses de junho e julho deste ano. A praça do pedágio também virou destino final de nove em cada dez protestos, se tornando o marco-zero das manifestações.
A crise envolvendo a ponte definitivamente ganhou conotação política quando o deputado estadual Euclério Sampaio (PDT) materializou o clamor popular em um projeto de decreto legislativo que propunha o fim da cobrança. A votação da proposta foi permeada pela ocupação da Assembleia, que se estendeu por longos 12 dias. Os manifestantes exigiam que o projeto que propunha o fim da cobrança do pedágio na Terceira Ponte entrasse na pauta de votação da Casa.
O impasse gerou um baita desgaste para o governo, que viu sua base aliada rachar justamente onde ela parecia ser mais sólida, na aliança com o PT.
Ante a ocupação do prédio do Legislativo estadual e o racha na base, o governo contra-atacou com todas suas armas. Assessorado pelo Tribunal de Justiça, Ministério Público e Tribunal de Contas, o governo anunciou uma auditoria para pôr o contrato com a Rodosol a pratos limpos.
Para acalmar os ânimos das ruas, decidiu reduzir a tarifa do pedágio até que a auditoria fosse concluída.
Casagrande, na entrevista, ao fazer o balanço dos seus 33 meses de governo, admite que o valor do pedágio – que caiu de R$ 1,90 para 0,80 – é irreversível. “A decisão da Justiça de reduzir para esse valor, não deixa margem para o governador. As pessoas vão se acostumar a pagar R$ 0,80 e como é que a Arsi (Agência Reguladora de Saneamento e Infraestrutura Viária do Espírito Santo) vai passar para R$ 1,90?” Não vai.
É óbvio e ululante que a tarifa não vai subir até a contabilização final do processo eleitoral de 2014. Quando o governador admite que não há ambiente político para retornar à tarifa anterior, ele quer dizer que não vai adotar uma medida impopular em plena véspera de ano eleitoral.
É curioso que Casagrande atribuiu a redução da tarifa à Justiça. Mas quem acompanhou de perto os bastidores da crise sabe que o governador, na hora do aperto, recorreu ao TJES, MPES e TCE, que traçaram uma rota de fuga para Casagrande escapar da crise.
Na verdade, a redução da tarifa e auditoria fazem parte de um mesmo plano. Isso fica patente quando o governador “afirma” na entrevista que a tarifa permanece na casa dos R$ 0,80 mesmo após a auditoria.
É claro que o motorista que atravessa todos os dias a ponte não tem do que reclamar. Afinal, a tarifa que só tendia a subir caiu mais que a metade. Para atravessar a ponte durante um mês, ida e volta, o usuário que gastava R$ 114 passou a desembolsar R$ 48. Uma senhora economia. Medidas que repercutem para menos no bolso do cidadão, o que é raro, sempre são bem-vindas.
Embora, à primeira vista, a polêmica da Terceira Ponte caminhe para um desfecho favorável ao governo, a sensação que fica é de que o cidadão estava sendo enganado. Quer dizer então que se a população não fosse para as ruas, a Assembleia ocupada e o projeto de decreto apresentado, os motoristas continuariam pagando os mesmos R$ 1,90?

