Já se passaram 11 dias desde que as barragens da Samarco se romperam, devastando um vilarejo e despejando uma enxurrada de lama tóxica que vem descendo o rio Doce em direção ao Espírito Santo. Até o momento, o que se vê é uma sucessão de tentativas de desviar o foco para o principal problema envolvido aqui: a irresponsabilidade das empresas no caso e a falta de ações enérgicas do poder público, sobretudo do judiciário, para que elas paguem pelo que fizeram.
Mas quando se fala em pagar, não é simplesmente estabelecer uma multa que pode rolar por muitos e muitos anos, caindo no esquecimento. Como bem lembrou José Roberto de Toledo em seu artigo no jornal O Estado de São Paulo, nesta segunda-feira (16), sobre o episódio desastroso envolvendo a contaminação no Golfo do México, provocada pelo vazamento de 4,2 milhões de litros de barris de petróleo de uma plataforma da British Petroleum em 2010, que gerou uma batalha judicial que durou 15 anos com a empresa, que aceitou um acordo que determina o pagamento de uma multa de US$ 18,7 bilhões (cerca de R$ 71 bilhões) ao governo americano.
Aqui no Brasil a coisa é diferente, as proteções pelo próprio poder público sobre a punição de crimes ambientais e até mesmo fiscais das grandes empresas que se instalam no País, com as benesses do poder público, em troca de gordos financiamentos de campanha, fazem com que a expectativa de uma punição exemplar para esses crimes seja nula.
A empresa sabe muito bem onde o sapato pode apertar e, aparentemente, um investimento eleitoral sai bem mais barato do que cumprir as regras ambientais e produzir de forma sustentável. A reportagem do portal Uol, identificou em reportagem publicada no último sábado (14), um montante de R$ 2,6 milhões em financiamentos da empresa a parlamentares na Câmara dos Deputados e nas Assembleias de Minas Gerais e Espírito Santo. Estados onde ela desenvolve suas atividades e precisa do apoio do poder público.
Embora os parlamentares do Estado tenham dito ao portal que suas atividades não são influenciadas pela doação da empresa, a desconfiança do eleitor já está colocada. Qualquer deslize esse peso da doação ficará colada na imagem dos deputados.
Mesmo que parte da imprensa, que também recebe uma boa contribuição para tentar desviar o foco da situação, como por exemplo, dizer que a culpa pela água não chegar aos municípios afetados é dos índios, que interromperam a estrada de ferro, as redes sociais estão cheias de informações. Algumas delas, é verdade, não trazem fontes confiáveis de informação, mas os agentes políticos estão aos poucos entendendo que têm de dar explicações.
Enquanto tudo está bem – aparentemente bem – ninguém é cobrado, mas na hora que a tragédia acontece, a primeira coisa que vem à tona é justamente o comprometimento político com as empresas. Por isso, ou a classe política se posiciona, ou o esquecimento da tragédia de Mariana, pode trazer fantasmas para assombras as urnas em 2016 e em 2018.
Fragmentos:
1 – O governador Paulo Hartung (PMDB) e o vice-governador César Colnago (PSDB) se reuniram nesta segunda-feira (16) pela manhã com o arcebispo de Vitória Dom Luiz Mancilha para apresentar as ações de mitigação dos efeitos da chegada da lama da Samarco-Vale ao Estado.
2 – Politicamente, a foto nas redes sociais ao lado do líder da Igreja Católica no Estado, legitima as ações e evita os desgastes, já que Hartung está na lista de políticos financiados pela Vale. O que na atual conjuntura não tem agradado ao eleitor.
3 – Na reta final da disputa pela presidência da OAB-ES, começou a guerra de informação. A eleição é na próxima quinta-feira (19).

