Quando o ex-executivo da Odebrecht Infraestrutura, Benedicto Júnior, o BJ, diz que não recebeu nenhuma contrapartida do governador Paulo Hartung (PMDB), é preciso pensar melhor, afinal, a lei do mercado, que o governador segue tão fielmente diz que não existe almoço grátis.
O próprio Hartung sempre administrou o governo do Estado como uma empresa, minimizando ao máximo o papel do Estado e estreitando as parecerias com a iniciativa privada. Por isso, não dá para acreditar que os recursos foram repassados pela empresa às campanhas dos aliados do governador por pura questão de afinidade.
Não é por causa do papo e do cafezinho que BJ se despencava para Vitória “conversar” com o governador, em seu escritório de consultoria. Talvez sem perceber, ele deixa transparecer isso. Na tentativa de elogiar o governador, ele acaba mostrando que Hartung fazia uma espécie de consultoria para a empresa.
Em um Estado pequeno, Hartung era tido como um bom formador de opinião. Na verdade estamos falando de um governador que desde 2003, seja diretamente quando estava à frente do governo, seja indiretamente, quando influenciava no mandato do sucessor, Renato Casagrande (PSB), sempre foi a grande liderança política do Estado.
Com o tabuleiro eleitoral na mão, o governador sabia muito bem como mover suas peças. Assim também funcionava no campo econômico do Estado. As conversas valiosas que Benedicto tinha com Hartung mostravam para ele o cenário do Estado e quando e como seria importante investir ou recuar em um negócio no Estado.
Na verdade, o elogio de BJ pouco adianta para limpar a barra do governador. É verdade, e isso sempre se comentou nos meios políticos, Hartung não era o tipo do cara que estava na política visando enriquecimento, embora tenha um patrimônio invejável para quem não tem assinatura alguma na carteira de trabalho, mas se tem uma coisa que Hartung sabe acumular é poder.
E como detentor, por muito tempo da unanimidade no Estado, tinha o controle total da classe política e empresarial capixabas e isso é mais do que apenas interessante para uma empresa que tem relações tão estreitas com o poder, como a Odebrecht.
Fragmentos:
1 – Na lista de pagamentos da Odebrecht, os apelidos dos políticos capixabas são interessantes: Hartung é Baianhinho; Renato Casagrande é Centroavante, Ricardo Ferraço é Duro, Luiz Paulo Vellozo Lucas é Filhote, e Luciano Rezende, Filho do Reino.
2 – Como vai ficar a situação do diretor geral da Assembleia, Roberto Carneiro depois dessa bomba com a delação de Benedito Júnior? Alçado ao cargo há menos de dois meses, o pedetista é citado na delação de Benedito Júnior. Isso complica a situação para o lado da Assembleia.
3 – A mudança no tabuleiro de 2010, com a substituição de Ricardo Ferraço por Renato Casagrande também surpreendeu o setor de caixa 2 da Odebrecht. Estavam contando com um cenário, em que Ricardo fosse o candidato ao governo e Hartung ao Senado.

