Durante os dois primeiros mandatos de Paulo Hartung (PMDB), as sessões de prestação de contas do governo na Assembleia serem foram marcadas pela monotonia. O perfil subserviente do Legislativo ao Executivo tornava as sessões, ano a ano, cada vez mais enfadonhas. Os deputados costumavam servir de “escada” para o governador, que usava as deixas dos parlamentares para exaltar os resultados de sua gestão. Ninguém ousava criticá-lo e as “perguntas” se transformavam em salvas de elogios ao Executivo
Para não dizer que as sessões nunca saíram desse roteiro maçante, o deputado Euclério Sampaio (PDT), durante uma dessas prestações de contas, chegou a rasgar um pedaço de seda para simbolizar a subserviência dos colegas ao chefe do Executivo estadual. Mas tirando um ou outro lampejo de insatisfação, Hartung, invariavelmente, sempre teve o Poder Legislativo em suas mãos.
Neste terceiro mandato, porém, a situação mudou de figura. O controle soberano do governador sobre a Assembleia foi quebrado por um novato na Casa e na política. Hartung não imaginava que o professor eleito com 12.007 votos pudesse se transformar no seu pior pesadelo.
Desde o início do seu mandato, Sérgio Majeski (PSDB) passou a ser a voz dissonante na Casa. Empunhou, logo de cara, a bandeira da educação – assunto que domina de trás pra frente – e a fincou num campo até então virgem no Legislativo: o da oposição.
O Escola Viva, que Hartung lançou como seu mais importante programa na área da educação, acabou sendo minado pelas críticas sistemáticas do deputado à política educacional do governo. Majeski nunca questionou o teor da proposta do Escola Viva em si, mas a estratégia oportunista do governo em querer se promover com um programa-vitrine em detrimento das escolas que estão sendo fechadas ou que se encontram deterioradas.
A coerência não só na defesa qualificada da educação, mas também de outras demandas de interesse da sociedade, conferiu ao deputado, dentro e fora da Assembleia, ao longo desses quase dois anos e meio de mandato, o “título” de principal referência de oposição ao governo Paulo Hartung.
Em função desse retrospecto, a prestação de contas deste ano do governador era vista como uma oportunidade única para Majeski ficar frente a frente com Hartung. O esperado embate, porém, não aconteceu. O governador usou sua licença médica como subterfúgio para evitar o confronto com o deputado do PSDB. Para se livrar em definitivo do duelo, o governador escalou seu vice para a missão, evitando assim que sua ída à Assembleia fosse postergada.
César Colnago conduziu a sessão com desenvoltura. Mostrava equilíbrio e conhecimento sobre as ações do governo. Mesmo nos momentos em que foi apertado pelos pedetistas Euclério Sampaio e Da Vitória, o governador em exercício manteve o controle e, no geral, deu conta do recado.
A manhã-tarde da prestação de contas parecia reservar um desfecho glorioso para Colnago, até que o seu colega de partido decidiu balançar a roseira. Ora, a expectativa que os seguidores de Majeski, que não são poucos, depositavam no deputado era grande. Seus simpatizantes esperavam que o deputado fizesse o que ele faz melhor: oposição ao governo. E foi isso que ele fez ao inquirir o governador em exercício sobre a não aplicação dos 25% constitucionais na educação. Majeski também questinou o colega tucano sobre o caos na saúde.
Quem teve paciência para acompanhar as cinco horas de sessão, que continua enfadonha como sempre, respirou alguns minutos de democracia graças ao embate entre o governador em exercício e o representante da oposição. É muito provável que o duelo, que tirou Colnago do sério, tenha repercussão dentro do PSDB.
Independentemente do tom destemperado do governador em exercício, em alguns momentos, que chegou a dizer que Majeski não era “professor de Deus”; ou de acusá-lo de “pegar os casos negativos [do governo] para fazer discurso político”, ambos protagonizaram um debate histórico na Assembleia do ponto de vista da democracia. Um debate inédito na Era Hartung, que nunca soube e pelo jeito não aprenderá mais a conviver com o contraditório.

