No trajeto para o trabalho Marta pega um engarrafamento imprevisto e fica parada no trânsito por 20 minutos… E como esqueceu de carregar o celular, a única coisa que pode fazer é invejar os ocupantes dos carros vizinhos ocupados em seus celulares. Ou olhar as nuvens. O imprevisto – assim chamado porque não se pode prever – é como uma nuvem no céu – vaga tranquila, depois de leve oscila… Quando criança, Marta achava que ser uma nuvem flutuando no azul infinito devia ser a melhor coisa do mundo.
De repente vem um vento e a nuvem é levada para outras paragens, ou trombica com outra nuvem e viram uma nuvem só, grandona, que forças imprevistas podem fazer se desmanchar no ar ou virar chuva. Na cidade ou no campo, a chuva é captada com antecedência pela meteorologia, ou cai sem aviso prévio, indiferente ao fato de terem anunciado tempo bom, sujeito a sol, praias e piqueniques. Principalmente nas férias.
Nuvem é nuvem, e nem ela sabe o que vai fazer daqui a pouco. Mas deve ser empolgante ficar lá no alto assistindo a vida passar naquela bola azul lá em baixo, onde as coisas mais imprevistas estão sempre acontecendo. Houve um tempo sem televisão e sem joguinhos eletrônicos, em que olhar nuvem passando era um dos passatempos mais animados. Marta criança queria morar numa nuvem, e ficava olhando pro céu, escolhendo qual modelo ia ter. “Que ideia boba, menina!” ralhava a avó desalmada.
Houve um tempo em que as avós ralhavam, hoje em dia tira-se o iPad por 15 minutos. A menina de ontem hoje é uma professora irritada e muito ocupada, mas o tempo perdido no trânsito a fez recordar… Há quanto tempo não olhava pro céu e apreciava o desenho branco das nuvens sobre a tela azul do infinito? Na pressa de uma vida vazia e sem graça, só olhamos pra cima para tomar decisões imediatas – Levo ou não levo a sombrinha? Arrisco molhar o sapato novo ou vou com o velho?
Hoje vamos desenhar nuvens”, diz para os alunos quando entra na sala de aula. A pirralhada a olha espantada – Não vai brigar porque estavam fazendo a maior bagunça enquanto ela não chegava? Nenhum castigo porque o chão está salpicado de bolinhas de papel, restos da guerra deflagrada entre meninos e meninas alguns minutos antes? Não vai pedir os deveres de casa? Não viu a caricatura que um engraçadinho desenhou no quadro negro? A imprevista atitude de Marta os deixa confusos.
Confusos mas felizes. E desenham – Como é nuvem mesmo? pergunta um; É como a pluma vagando pelo ar… Posso fazer um transformer?” pergunta outro. A Marta de ontem diria não, mas hoje está em tal espírito de nuvem que concorda. Afinal, as nuvens, tal como os Transformers, estão sempre se transformando. Aproveita a pergunta para comparar os ciclos da água com os Transformers das telas, e dispensa a classe mais cedo para o recreio.
As outras professoras estranham essas atitudes imprevistas. Marta conta que ficou parada no trânsito essa manhã e aproveitou para olhar as nuvens. Contou da avó, que em criança ela julgava desalmada. O povo a chamava de santa ou fada, curandeira ou feiticeira, dependendo dos milagres que aprontava. E milagres ela sabia fazer! Criou a neta sozinha, que Marta não conheceu pai nem mãe – se é que os teve. “Quando morrer quero vou voltar pra minha nuvem”, disse, e ninguém entendeu. Mas o dia ficou mais bonito.

