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Nem sempreserá como sempre

Chega de madrugada, bêbado como sempre. Como sempre chama-a de bruxa e retardada, xinga o governo, amaldiçoa Deus e o casamento. Derruba uma cadeira e joga longe o prato de comida que resseca sobre o fogão. Como sempre, Maria se encolhe na cama, amedrontada, e para evitar piorar o que já está ruim, finge que dorme. Apesar do barulho.
 
Com alguma sorte, os vizinhos estão todos dormindo e nada escutam… Com essas paredes tão finas de condomínios modestos? Com um pouco mais de sorte, talvez os dois meninos dormindo no outro quarto não acordem também. Tão pequenos, e já aprenderam o medo, a ficarem quietos e deixar os adultos resolverem seus problemas lá entre eles.
 
Mas como sempre acontece, a sorte não é tão boa assim… Dia seguinte tem que tomar coragem pra enfrentar a vida – sair de casa e deparar com os vizinhos, ‘Bom dia, Maria, como vão os meninos?’ Fingem que nada ouviram nem perceberam, mas tem sempre um ou outra que não demonstra tanto tato, 'Teu homem essa noite chegou chumbado, hem?!'
 
Bons vizinhos, sempre prestativos, ajudando na precisão. Se bate numa porta qualquer é muito bem recebida. Mas de bêbado ninguém gosta. Evitam deparar com ele nos rumos diários, e se o encontro é inevitável, mal resmungam um cumprimento entre dentes. E os cochichos depois que ele passa – Esse tá sempre bêbado…
 
O dia não para pra ouvir choradeira de ninguém. Maria deixa os meninos no colégio, pega um ônibus lotado e chega 15 minutos atrasada na fábrica. ‘Que mancha é essa no braço, Maria?’ pergunta a supervisora. ‘Bati na quina da porta’. A mulher a olha com pena, mas também com reprovação. Todos percebem, Maria se ilude à toa.
 
No fim do dia pega os meninos na creche e voltam pra casa. Como sempre, depois de dormir o dia todo, ele já vai longe pelos bares da vida, que a noite é uma criança, diz quem não tem que trabalhar no dia seguinte. Como sempre, fica até tarde na farra com os amigos, se embebedando, se enrolando com uma qualquer que lhe pague a bebida ou um prato de comida. 
 
Os meninos veem televisão enquanto faz a janta-almoço do dia seguinte. Olha os cadernos, ajuda nas lições. Depois conversam, brincam, eles contam casos da escola, ela inventa histórias engraçadas sobre o dia na fábrica. Naquele momento, na sala aconchegante, são felizes. Breve ilha de paz no longo dia cansativo, ela e os filhos, sem medo, sem choro, sem gritos.
 
Vão pra cama cedo e, com sorte, talvez eles não acordem quando ele chegar. Como sempre, antes de apagar as luzes, eles fazem uma breve oração ao anjo da guarda, mas em vez do ‘Protege o papai e a mamãe’ de todas as noites, o mais novo reza, “Meu anjo da guarda, faz o papai não chegar’.  Maria beija os filhos, apaga a luz e espera que durmam. Depois pega o martelo, os pregos, e lacra a porta da rua. Para sempre.  

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