A cada eleição aumentam as queixas sobre as pesquisas do Instituto Futura, que são publicadas no jornal parceiro, A Gazeta. Este ano, mal começou o processo eleitoral e as duas primeiras pesquisas feitas pelo Instituto já causam polêmica. Na sessão desta terça-feira (15), na Assembleia Legislativa, o deputado Cláudio Vereza chamou a atenção dos colegas para o infográfico que exibia os percentuais de intenção de votos para o Senado.
Na pesquisa, o candidato do PT, o ex-prefeito João Coser, aparece dois pontos atrás do primeiro colocado, o delegado Fabiano Contarato (PR), mas o gráfico que ilustra os dados do petista é visivelmente desproporcional ao do candidato republicano. Vereza reclamou que o Instituto estava perseguindo o ex-prefeito e pediu retratação ao jornal.
Na edição desta quarta (16), o jornal publicou a correção dos gráficos, mas não pediu desculpas a Coser, como exigia Vereza.
Até o deputado Freitas (PSB), que não é de falar muito, foi solidário às quixas do colega petista. “Na ultima eleição terminou com erro muito grave nas pesquisas da Serra. De quem é o erro? Não é bom para a democracia, para a política do Estado, não é bom que publique dessa forma. Importante que faça com mais isenção. E quando tenha que publicar gráficos que sejam pertinentes com o percentual”.
A polêmica deste ano começou logo na primeira pesquisa feita pelo Instituto para a série “Avaliação da Gestão”, do jornal A Gazeta, que mede a qualidade da gestão dos prefeitos de algumas cidades capixabas. A primeira pesquisa da série avaliou a gestão do prefeito Rodney Miranda (DEM), em Vila Velha. De carona na pesquisa da avaliação, o Instituto e o jornal resolveram fazer o levantamento de intenção de voto para governador e senador, deflagrando a polêmica.
A pesquisa de Vila Velha, “coincidentemente”, surgiu justamente no momento em que aumentava o burburinho em torno da iminente entrada do ex-governador Paulo Hartung (PMDB) na corrida ao Palácio Anchieta. No clima de grande tensão e indecisão que mexia (e mexe) com a classe política, a pesquisa ajudou a sacramentar a hipótese de Hartung enfrentar o governador Renato Casagrande (PSB) com chances reais de vitória.
A oportuna pesquisa para as pretensões do ex-governador, publicada em A Gazeta no último dia 8, mostrava Hartung e Casagrande tecnicamente empatados. O resultado, obviamente, serviu de combustível para a arrancada de Hartung, que anunciaria, em seguida, que estava colocando o nome à disposição do partido para disputar o governo.
Analisando os dados da pesquisa que ouviu os vila-velhenses, o diretor do Futura, João Gualberto, potencializou os resultados do ex-governador, ao alertar que o desempenho de Hartung poderia ter sido melhor, não fossem a péssima avaliação do prefeito Rodney, afilhado político de Hartung, e o fato de o peemedebista (naquele momento) ainda não ter se colocado como candidato.
Na pesquisa publicada em A Gazeta nessa terça, a manchete foi exatamente a mesma, destacando o empate técnico entre o socialista e o peemedebista.
O levantamento Futura/Gazeta dá margem para ser considerado oportunista. Não é razoável que o Instituto trate a intenção de voto para governador e senador “embutida” na mesma sondagem da “Avaliação da Gestão”. Essa estratégia, que não deve ser para economizar dinheiro, fragmenta os dados e não representa com fidelidade a tendência do eleitorado de todo o Estado.
Por que o Futura/Gazeta não fez primeiro uma pesquisa estadual sobre a intenção de voto para governador e senador? Seria porque os prefeitos do interior ainda estão sobre forte influência do governador Casagrande e o resultado poderia ser, no geral, bem menos estimulante à entrada de Hartung no páreo? Será que o ex-governador colocaria seu nome se aparecesse 10 ou 15 pontos atrás do socialista?
Além do recorte inexplicável, os critérios nebulosos que o Instituto se balizou para fazer o levantamento para o Senado são intrigantes . Por que os nomes dos tucanos Sérgio Aurich e Luiz Paulo Vellozo Lucas, que já assinaram o livro como pré-candidatos do partido, não aparecem em nenhum cenário? Só para registro, a próxima pesquisa da série Avaliação da Gestão, em Cariacica, também continua mantendo os tucanos de fora.
Muito mais graves que o erro no infográfico, apontado por Vereza, são essas manobras subjetivas que passam despercebidas aos olhos do eleitorado, mas que podem ter efeitos decisivos no processo eleitoral. Ou o eleitor já se esqueceu do que aconteceu nas eleições municipais de 2012?
Para quem não se lembra, a edição dominical do jornal A Gazeta, que começou a circular no sábado (27 de outubro de 2012), véspera do segundo turno da eleição, exibia na capa, em letras garrafais, que Luiz Paulo estava na frente de Luciano Rezende (PPS). Tanto na espontânea quanto na estimulada o tucano aparecia como vitorioso. A pesquisa, que tinha margem de erro de 3,3 pontos, ainda informava que, àquela altura do campeonato, apenas 8,2% do eleitorado admitia que poderia mudar o voto. Mas o dado seguinte tranquilizava os tucanos. Mostrava que, em caso de mudança, 37,8% dos eleitores dariam seu voto para Luiz Paulo, contra 31,1% que mudariam para Luciano, que também, segundo a pesquisa, era mais rejeitado que o tucano.
O resultado da eleição, todo mundo sabe. Para Luciano, a pesquisa teve ter sido vista como uma manobra ardilosa que poderia ter mudado os rumos da eleição; já o Instituto deve ter tratado o resultado como uma virada “surpreendente” de última hora para justificar o “erro”.
Aliás, o slogan do Instituto avisa: “Ninguém acerta por acaso”. De outro lado, o histórico das pesquisas eleitorais no Espírito Santo tem mostrado que “ninguém erra por acaso”.

