A maior evidência de que as prisões efetuadas durante e após o protesto da última sexta-feira (19) no Centro de Vitória foram arbitrárias reside numa tese simples: das 46 pessoas detidas, apenas sete continuam presas no Centro de Detenção Provisória de Viana. Os documentos divulgados no final da tarde desta segunda-feira (22) pelo Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES) mostram que não havia consistência nas acusações da polícia para assegurar a manutenção das prisões. Não restou à Justiça alternativa a não ser pôr os manifestantes em liberdade. Isso deixa claro que o governo do Estado quis que a polícia “pregasse um susto” nos manifestantes, para espantá-los de vez das ruas.
Quem tiver tempo e paciência para ler a documentação que norteou as prisões se certificará que as pessoas foram detidas de maneira arbitrária. A polícia, assim que o protesto de sexta foi dispersado, passou a fazer uma caça aos manifestantes nas ruas do Centro da Capital capixaba.
O critério usado para abordar os suspeitos foi simples. A polícia construiu um estereótipo de manifestante. Quem estivesse circulando pela região Central na tarde de sexta trajando bermuda, camiseta (pretas, principalmente), carregando uma mochila nas costas, era considerado um suspeito em potencial.
Nas abordagens truculentas e arbitrárias relatadas pelos detidos, até um litro de vinagre poderia ser considerado “prova” suficiente para mandar o suspeito para a cadeia. Máscara com filtro para se proteger do gás lacrimogênio? Cadeia. Estilingue? Cadeia. A manifestante que apanhou uma bala de borracha no chão, provavelmente para guardá-la como suvenir do protesto, não sabia, mas estava “plantando” prova contra si mesma quando resolveu enfiar o artefato na bolsa.
Azar mesmo tiveram aqueles que não tinham nada a ver com o protesto, mas pagaram o pato do mesmo jeito. Caso de dois funcionários públicos de Domingos Martins que vieram para Vitória para se matricular numa faculdade e acabaram vendo o sol nascer quadrado em Viana.
O infortúnio marcou também a vida da funcionária de uma loja no Centro. Nem o uniforme da empresa funcionou como álibi. Para a polícia, a trabalhadora preenchia as características do “perfil do manifestante”. O critério se estendeu a outras pessoas alheias ao protesto que circulavam naquele dia pelo Centro.
Além das prisões arbitrárias, o chefe de Polícia Civil, Joel Lyrio – mais novo porta-voz do governador Renato Casagrande para falar sobre os protestos (já experimentou o comandante da PM, Edimilson dos Santos, o secretário de Segurança, André Garcia) -, como os outros interlocutores do governo, demonstrou estar mal instruído.
Exemplos do despreparo não faltam. A polícia chegou a divulgar que havia apreendido uma carabina e uma pistola, mas no documento apresentado pelo TJES sobre as prisões, nem revólver de espoleta aparece.
A imprensa , no fim de semana e nesta segunda (22), a partir de declarações de Lyrio e do próprio governador, noticiaram com grande destaque que os “vândalos” estavam recebendo de R$ 10 a R$ 20 para atacar os prédio públicos. O chefe da PC, no entanto, quando foi detalhar o assunto, mostrou que a história também era um tanto frágil. As explicações de Lyrio sobre a denúncia não convenceram as pessoas com um pouco mais de perspicácia.
Todos esses episódios, somados à decapitação da estátua que ornamentava as escadarias de acesso ao Palácio Anchieta, principal palco dos protestos da última sexta, foram estrategicamente trabalhados para criminalizar as manifestações de rua. O objetivo do governador, que parece aos poucos estar sendo alcançado, é jogar a população contra os protestos. Parte da imprensa também está se empenhando bastante para “vender” a tese do governo à sociedade.
Criminalizando os movimentos e criando o clima de terror nas ruas – como no episódio das prisões arbitrárias -, o governo pretende ir desidratando os protestos, até que ele seja reduzido a um número ínfimo de pessoas e acabe.
O governo acha que o plano está funcionando, pois sente que a opinião pública vai, aos poucos – principalmente agora que o pedágio da Terceira Ponte jé caiu para R$ 0,80 -, apoiando as ações de repressão ao movimento e tratando os manifestantes como uma turba ensandecida de vândalos.
É oportuno lembrar que o movimento das ruas é um fenômeno novo. Como já aconteceu ao longo desses 30 dias de protestos, o movimento pode surpreender a qualquer momento e acabar levando o plano do governo para o vinagre.